Única na história é essa ideia de isolar uma região, na qual toda a vida civil foi subordinada à exploração de um bem exclusivo da coroa.

Spix & Martius. Viagem pelo Brasil.

 *Escrito por Alessandro Borsagli


Introdução

 

A descoberta de ricas jazidas no final do Século XVII levou ao imediato deslocamento de grandes contingentes populacionais para a região das Minas. Uma consequência disso foi o surgimento de numerosos núcleos urbanos nas imediações das áreas de mineração. Com o passar do tempo, sendo necessária por parte da Metrópole um maior controle da região, alguns desses núcleos situados em locais estratégicos e geralmente próximos das lavras foram elevados à condição de Vila, recebendo um maior aparato governamental. Na região do Serro Frio apareceram inúmeros núcleos mineradores que depois de certo tempo se tornaram arraias, como nas outras partes da região.

Em 1720 foi criada a Capitania de Minas Gerais, desmembrada de São Paulo, porque a Coroa precisava ter mais controle sobre essa parte da Colônia, que mesmo com a instalação do aparato administrativo português na região das Minas ainda apresentava sérios problemas em relação ao cumprimento das leis e impostos. A Metrópole se ocupou em instruir os governadores para lá enviados, para que agissem no sentido de impor a ordem e o controle sobre a população, não apenas quanto à atividade econômica central – a mineração – mas também quanto à vida social que se constituía, sobretudo nos núcleos urbanos.

O Arraial do Tejuco, atual Diamantina, surgiu como os outros núcleos urbanos do seu tempo, em função da existência e posterior exploração aurífera. Os arraiais foram proliferando ao ritmo das descobertas de novos veios nos regatos e grupiaras espalhavam-se por áreas contíguas, por conta disso foram compondo uma rede urbana "ao longo dos caminhos e estradas nas encruzilhadas ou nas travessias de cursos d'água, a margem dos locais onde o ouro e o diamante eram encontrados" (Silva Telles, 1978, p.46). Normalmente os arraiais, assentavam-se ao redor de capelas, orientavam-se pelos caminhos, configuração que se observa nos primeiros núcleos de povoamento, como se lê nas palavras de Silvio de Vasconcellos:

 

(...) suas ruas são sempre antigas estradas. Por isso mesmo, foram a princípio chamadas de rua da Praça, da Matriz, da Câmara, etc. Não porque nelas se localizassem estas edificações, mas porque a elas conduziam. Por isso mesmo ainda hoje os habitantes da zona rural tratam a cidade como 'a rua', no singular, como uma reminiscência do trecho único da estrada onde se construíram estabelecimentos comerciais. 'Vou à rua fazer compras', dizem. E, realmente, à rua quase só vão com essa finalidade (VASCONCELLOS, 1959)

 

Inicialmente o núcleo primitivo do Tejuco assentou-se na vertente do Córrego São Francisco onde estão às ruas de Santa Catarina e do Burgalhau. A ocupação deu-se nesse lugar por ele estar próximo às lavras auríferas e pela estrada de acesso a Vila do Príncipe e a Vila Rica cortar o arraial. Por essas é que chegavam os víveres necessários para a sobrevivência da população local.

As cidades mineiras do século XVIII surgiram todas pelos caminhos abertos pelos primeiros exploradores. O caminho que interligava arraiais, tornaram-se estradas, precipitando a institucionalização do espaço destes arraiais por conta do comércio e das rotas de abastecimento, caracterizando a apreensão deste chão já não mais como somente "espaço de produção", sendo a nascente ordenação e normatização urbana, sinais de um "espaço de reprodução" que se define (Monte-Mór,1999).

A declaração da descoberta dos diamantes em 1729 fez com que um grande número de pessoas se deslocasse para o arraial. Segundo relatos da época os diamantes já eram explorados na região havia vários anos e o anuncio da descoberta só se deu por causa dos boatos existentes na Corte, sendo impossível esconder o segredo. Um comerciante, Francisco da Cruz morador da Vila de Sabará relatou que a Vila estava ficando deserta, pois todos corriam para a região diamantina[1].

A chegada de tamanha população fez com que o arraial se expandisse para além do núcleo inicial. Ele foi crescendo em direção ao Morro de Santo Antônio e o centro do arraial foi então deslocado para uma área menos tortuosa, onde hoje se localiza a Praça da Matriz, atual centro de Diamantina. O arraial cresceu tanto em pouco tempo que o Governador da Capitania, Dom Lourenço de Almeida reconheceu que a população do arraial já ultrapassara em muito a da Vila do Príncipe, embora esta fosse a cabeça da comarca.

A influência do Tejuco já se espalhara por todo o norte de Minas. A economia do arraial sofreu um grande impulso com a descoberta e com o grande número de pessoas que se deslocaram para lá. Apareceram negociantes, comerciantes e tantas outras funções que a Coroa então percebeu que era necessário um maior controle sobre a região, para não haver prejuízos para o Erário Real.

Dos novos moradores era cobrado certo valor para que pudessem explorar a área, eram as cartas de data, que anteriormente eram válidas para a extração aurífera. Foi rigorosamente proibido o estabelecimento de lojas e vendas próximas às lavras e foi estipulada uma distância mínima para tal. Com o intuito de evitar que os escravos tirassem proveito da extração, era expressamente proibida a compra de diamante deles e quem os comprasse estaria sujeito a penas extremamente severas.

Em 1731 foi enviado ao Governador um decreto impedindo a exploração dos diamantes em todos os rios que os tivessem, decretando então o monopólio real sobre as gemas. A Metrópole queria ter maior lucro com as jazidas, pois estava sendo cobrado apenas o imposto da Captação. Contudo, o decreto não foi posto em pratica e o comércio do diamante voltou a ser franqueado em toda a região e o arraial do Tejuco, centro do comércio do diamante continuava recebendo mais pessoas vindas de várias regiões, até mesmo de Portugal.

 

A Demarcação Diamantina

 

O decreto de julho de 1734 determinou a proibição da exploração dos diamantes e o fechamento da região diamantina pela Coroa. A proibição da exploração se deu pelo fato de o diamante ser encontrado com abundância nos rios próximos ao Tejuco e a sua exploração desenfreada fez seu valor despencar no mercado internacional.

Até 1734 os limites do Distrito ainda não se encontravam bem definidos e os decretos proibindo a mineração faziam apenas menção aos rios e ribeirões proibidos. Então realizou-se uma delimitação mais precisa dos limites do Distrito, por Martinho de Mendonça Pina e Proença e pelo Engenheiro Militar Rafael Pires Pardinho, com a colocação de seis marcos cuidadosamente fixados nas divisas estabelecidas e, cerca de oito postos fiscais que controlavam a entrada e saída do distrito. O Distrito Diamantino era como um Estado dentro do Estado, uma região distinta do resto da Capitania por encerrar diamantes no solo e nos cursos d'água. A Coroa, percebendo a necessidade de uma administração especial na região resolve criar no mesmo ano a Intendência dos Diamantes, com leis próprias e válidas somente no Distrito. O Intendente, autoridade suprema no Distrito só prestava obediência à Junta Diamantina localizada em Lisboa e nem o governador da Capitania de Minas e mesmo o Vice-Rei do Brasil não tinham autoridade dentro do Distrito, salvo em alguns casos isolados de intervenção a mando de Lisboa.

Após cinco anos de proibição da exploração das lavras, em 1739 foi estabelecido o sistema de exploração das lavras diamantinas por contrato, levando então a população residente no Distrito a procurar novas formas de sobrevivência.

A corrupção foi grande no período dos contratos e a administração era bastante ineficaz, mesmo com as diversas mudanças nos inúmeros decretos visando combater a corrupção. Na verdade, era uma tarefa quase impossível, pois ela envolvia uma rede de contrabando já organizada que ia desde o Tejuco até Lisboa.

Com o maior rigor a Coroa passou a ter mais controle sobre o comércio no arraial, que era o centro de convergência do comércio do Distrito e mesmo de fora dele. Era de extrema importância para a metrópole o controle, pois o contrabando era extremamente forte e servia como base econômica para inúmeras famílias do Tejuco e em muitos casos, os contrabandistas eram acobertados pela própria Intendência[2]. Segundo os cálculos de Eschwege, no início do século XIX o volume do contrabando era igual ao da produção. Daí poder-se concluir a importância do contrabando para a economia do Tejuco no período colonial.

Segundo Felício dos Santos (1976, p.119), foi no período dos Contratadores que o Tejuco aumentou consideravelmente sua população e o comércio se desenvolveu, mesmo com as leis e bandos em vigor, que procuravam controlar e até mesmo          extingui-lo.

Uma das características da economia do Arraial no período colonial eram os rearranjos da população em torno das leis e decretos que vinham da metrópole, restringindo ou mudando a forma de exploração e ocupação do território. A Metrópole poderia e realmente tinha a intenção de inibir o máximo que pudesse a acumulação gerada pelo comércio no Distrito, mas a população sempre encontrava uma saída para a sobrevivência, estabelecendo redes de contrabando de diamantes na qual a Coroa não conseguia desarticula-la e alugando escravos para os Contratadores e posteriormente para a Real Extração, quanto se empregando na Administração, como veremos adiante. Mas, se por um lado a Coroa tentava controlar o Distrito para evitar a acumulação de Capital por outro, essa acumulação favorecia o Mercantilismo entre Colônia-Metrópole com a compra de produtos vindos de Portugal por alguns moradores do Arraial que acumulavam fortunas devido ao contrabando de diamantes.

O Mercantilismo era à base da economia brasileira no período colonial no qual Portugal detinha os monopólios do comércio sobre os produtos enviados para a colônia e esse monopólio perdurou até 1808 com a vinda de D. João VI para o Brasil. O Mercantilismo era na verdade, a transferência da riqueza da colônia para a metrópole e no caso de Diamantina o enviado era os diamantes, pequena quantidade de ouro e pedras preciosas, tudo severamente controlado pela Coroa.

Em 1753, foi promulgada uma lei em que El-Rei toma para sua proteção os contratos do diamante, monopolizando o comércio. Esta lei proibia qualquer tipo de comércio de diamante nos domínios do Reino, nem mesmo ele poderia ser extraído sem permissão do Contratador.

Na dificuldade de combater os descaminhos do diamante, em 1771 o Marques de Pombal decreta o monopólio real dos diamantes extinguindo o sistema de exploração por contrato e criando a Real Extração dos Diamantes, custeando ela mesma o serviço[3] e aumentando ainda mais o controle sobre a região. Esse fechamento da região a singularizou mais ainda do resto da Capitania, passando a possuir leis próprias, reunidas no Livro da Capa Verde que continha todo o Regimento Diamantino, necessário para o controle da exploração do diamante e da sociedade e submetendo a população a um singular modo de vida, regida por leis que visavam apenas o lucro para a Coroa.


O Tejuco e os destacamentos militares nas estradas.
Fonte: BN

A população do Distrito soube se reorganizar em torno do novo sistema de exploração dos diamantes e passou a tirar daí o seu sustento. A dita classe média do Tejuco, por exemplo, passou a compor a guarda responsável pelo patrulhamento do distrito. A classe dominante composta de portugueses e descendentes passou a ocupar os cargos da Real Extração. Os escravos que antes trabalhavam para os contratadores foram alugados para a real Extração, que pagava aos seus senhores diárias pelo serviço. Mesmo com essa mudança na exploração dos diamantes as outras atividades continuaram tendo importância, atividades que eram exercidas dentro e fora da demarcação e que tinham participação de alguns cidadãos do arraial.

Uma grande parcela da população possuía escravos alugados para a Real Extração e muitos deles viviam do aluguel pago pela Junta. Quando a Coroa pensou em revogar o monopólio dos diamantes em 1803, a população que vivia desse aluguel ficou temerosa de perder essa importante fonte de renda e para evitar um colapso da economia local foi necessário que a Coroa desistisse por um tempo dessa medida. Uma revogação do monopólio prejudicaria consideravelmente a população do arraial que já tinha consolidada a sua economia na Real Extração e a coroa suprimindo o monopólio certamente levaria o arraial e região à ruína.

O naturalista Auguste de Saint-Hilaire observou em 1817 no livro Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil algumas singularidades de Diamantina como, por exemplo, o forte comércio existente no arraial, mesmo este sendo rigorosamente controlado pelo Intendente. Esse é um indício de como Diamantina era o centro do comércio de toda a região. Observa também que ela se tratava do segundo núcleo populacional mais importante de Minas depois da capital, Vila Rica, atual Ouro Preto.

O Distrito Diamantino existiu até o ano de 1821 quando então foi extinto devido à incompatibilidade do Regimento com as leis promulgadas na Revolução Liberal do Porto.

 

Considerações Finais

 

Durante cerca de 85 anos existiu o Distrito Diamantino, um Estado dentro do Estado, com leis e administração próprias. Porém observou-se que o Distrito não permaneceu totalmente isolado do resto da Capitania e o Intendente não dispôs de grande autonomia, como mandava o Regimento.

Porém o isolamento que ainda existiu, além do fato de ter permanecido como arraial até o ano de 1831 fez com que Diamantina não sofresse um grande crescimento populacional no período colonial e a sua economia se baseasse principalmente na extração de pedras, aluguel de escravos para a Real extração e no comércio de vários artigos como chapéus, comestíveis, quinquilharias, louças, vidros e mesmo grande quantidade de artigos de luxo, conforme observou Saint-Hilaire em 1817.

Ao se observar os núcleos populacionais que existiam quando da existência do Distrito Diamantino e os núcleos urbanos atuais, percebe-se que as marcas deixadas pela Demarcação influenciaram a ocupação da região, pois as atuais cidades na região são todas remanescentes da época do Distrito. Eram postos de guardas ou registros como núcleos mineradores, as datas de diamantes.

Pode-se citar as cidades de Gouveia e Couto de Magalhães de Minas como exemplo de registros e como núcleos mineradores têm Curralinho (Extração), distrito de Diamantina, e Datas, atualmente cidade. Daí pode-se concluir que as marcas deixadas pela antiga Demarcação Diamantina tiveram grande influência na ocupação do território que ela abrangia.


Referências

BARBOSA, Waldemar Almeida. Dicionário Histórico e Geográfico de Minas Gerais. São Paulo: Livraria Itatiaia, 1995.

ESCHWEGE, Wilhelm Ludwig von. Pluto Brasiliensis. São Paulo: Editora Itatiaia, 1979, 2° volume.

FURTADO, Júnia Ferreira. Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

FURTADO, Júnia Ferreira. O Livro da Capa Verde, o Regimento Diamantino de 1771 e a Vida no Distrito Diamantino no Período da Real Extração. Editora Annablume: 1ª edição 1996.

JUNIOR, Caio Prado. Formação Histórica do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Editora brasiliense 1976 14ª edição.

SAINT-HILAIRE, A.; Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo : Editora Itatiaia, 1974.

SAINT-HILAIRE, A.; Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. São Paulo: Editora Itatiaia, 1974.

SANTOS, J.F.; Memórias do Distrito Diamantino. São Paulo: Editora Itatiaia 4ª edição, 1976.

SILVA TELLES, Augusto Carlos da. A ocupação do território e a trama urbana. Revista Barroco, Belo Horizonte, v. 10, 1978/79.

SPIX & MARTIUS, Viagem pelo Brasil. São Paulo: Editora Itatiaia, 1981, 2° volume.

VASCONCELLOS, Silvio de. A Arquitetura Colonial Mineira. In: Primeiro

Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: UFMG, 1957.



[1] FURTADO, Chica da Silva, p.29.

[2] FURTADO, Livro da Capa Verde, p.65.

[3] ESCHWEGE, Pluto Brasiliensis, vol. 2, p. 89.

**Publicado no ano de 2010 no Web Artigos: https://www.webartigos.com/articles/35586/1/O-DISTRITO-DIAMANTINO-1734-1821/pagina1.html


Parte da Planta de 1895 onde se vê em destaque o Córrego do Pastinho.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

    O Córrego do Pastinho é um dos principais afluentes da margem esquerda do Ribeirão Arrudas. Ele tem as suas nascentes localizadas na área adjacente ao aeroporto Carlos Prates e ao longo do seu curso ele recebe as águas de quatro cursos d’água tributários: um na sua margem direita, cuja nascente se localiza na Rua Pará de Minas e os outros três na sua margem esquerda, a saber: Avenida Antonio Peixoto Guimarães (Avenida do Canal), Avenida Carlos Luz e Rua Jaguarão, todos canalizados sob essas vias. Desde os anos 70 o Córrego do Pastinho se encontra completamente canalizado sob a Avenida Pedro II.
   O vale do Córrego do Pastinho foi um dos cinco vales escolhidos para abrigar as colônias agrícolas criadas no final do Século XIX (ver A Ex Colônia Agrícola Carlos Prates: cronologia da sua ocupação em 110 anos). A colônia se concentrou notadamente na vertente da margem direita do córrego, cujos terrenos iam desde a Rua de Contagem (Rua Padre Eustáquio) até a margem do Pastinho.


Parte da Planta Geodésica e Topográfica de 1894 onde se vê o Córrego do Pastinho e parte das terras das Fazendas Palmital e Sacco, cujas benfeitorias dessa última fazenda se encontram sinalizadas no mapa, na margem esquerda do córrego.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997. 

    Com a anexação da colônia agrícola a zona suburbana em 1911 inicia-se o processo de urbanização do bairro Carlos Prates, que se apresentava com um expressivo adensamento populacional devido ao fracionamento dos lotes coloniais. A partir de 1920 verifica-se o numero cada vez maior de construções nas terras da antiga colônia agrícola acarretando o aumento dos arruamentos nos bairros situados no vale do Pastinho. O aumento populacional deve-se a melhoria do transporte publico, pois o serviço de Bondes chegou ao bairro em 1915 e teve sua linha estendida alguns anos mais tarde, junto com outros equipamentos urbanos.


Parte da Planta Cadastral de 1920 onde se vê alguns lotes da ex-colônia agrícola fracionados e os arruamentos recém abertos no Vale do Pastinho.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997. 


Parte da Planta datada de 1925 com o notável adensamento do bairro Carlos Prates. O Córrego do Pastinho aparece com o seu curso retificado, o que na verdade só aconteceria dez anos mais tarde.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997. 

    Na segunda metade da década de 20 acontece em Belo Horizonte o primeiro “boom” populacional acarretado pelas inúmeras vilas operárias que surgiam na capital e que direcionaram o crescimento justamente para oeste, nas vertentes do córrego do Pastinho. Ainda que espalhadas por uma vasta região e carecendo de infra-estrutura urbana as vilas foram responsáveis pela prioridade por parte do Poder Público em urbanizar e melhorar o acesso à região, além da necessidade de sanear o córrego do Pastinho, que nessa época já sofria com o despejo dos esgotos dos bairros e vilas no seu entorno, conforme escrito no Relatório de 1926 do Prefeito Christiano Machado:
“a poluição de suas águas é considerável”. “No córrego do Pastinho são lançadas as redes (de esgoto) das ruas Uberabinha, Prados e Tremedal.”

    No final dos anos 20 a bacia do Pastinho já se encontrava bastante povoada e a necessidade de se construir coletores de esgotos paralelamente ao córrego eram urgentes, assim como a canalização do Pastinho e a abertura de uma avenida sanitária, segundo o Relatório do Prefeito Christiano Machado datado de 1927:

“Para o esgotto do bairro Carlos Prates, não previsto pela Comissão Constructora, autorisei o projecto de uma avenida, ou mesmo viella sanitária acompanhando o curso do córrego Pastinho, para a construção dos emissários necessários”.
“Ao longo do córrego do Pastinho teremos que construir os emissários, que esgotarão as águas polluidas da ex-colonia Carlos Prates e da parte da 6ª suburbana, das visinhanças do Cemitério. Como medida de saneamento está em estudo um projeto de uma avenida ao longo do Córrego que será canalizado”.


    Na década de 30, mais precisamente em 1935 tem se o inicio da construção da avenida sanitária, batizada de Avenida Pedro II. A abertura da avenida, ao mesmo tempo em que era canalizado o Córrego do Pastinho melhorou o acesso as vilas que não paravam de surgir ao longo do vale do Pastinho e ao aeroporto Carlos Prates.
“Com a canalização do córrego do pastinho, abrir-se-á a avenida Pedro II, desde a rua ramal ate a rua manhumirim, ou sejam 3300 metros” (Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936).

    A canalização foi realizada inicialmente em duas etapas: da foz do Ribeirão Arrudas até a Rua Jaguari a canalização foi feita em alvenaria de pedra com o curso d’água correndo aberto. Somente nas proximidades da sua foz é que se fez a canalização fechada, sistema que foi também adotado no trecho entre a Rua Jaguari e Rua Manhumirim. Entre essas ruas a canalização do córrego era fechada devido à quantidade de ruas que atravessam o seu leito, sendo que seria muito dispendiosa a construção de inúmeras pontes ao longo da avenida, como aconteceu na canalização do Acaba Mundo nos anos 20.


Canalização do Córrego do Pastinho em 1929, nas proximidades da foz no Ribeirão Arrudas. Ao fundo o antigo Almoxarifado da Prefeitura.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Christiano Monteiro Machado, 1929


Canalização do Córrego do Pastinho em 1935, nas proximidades da foz no Ribeirão Arrudas.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Canalização e cobertura do mesmo trecho concluída.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Canalização concluída e abertura do primeiro trecho da Avenida Pedro II em 1936. À esquerda a Rua Peçanha.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1936.


Canalização do Córrego do Pastinho, nas proximidades do cruzamento com Rua Mariana.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Canalização do Pastinho no cruzamento com a Rua Jaguari. À direita uma edificação remanescente da antiga Fazenda do Sacco.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Canalização no mesmo trecho acima, na Avenida Pedro II sentido bairro-centro.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


Córrego do Pastinho e Avenida Pedro II nas proximidades da Rua Jaguarão.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.


O mesmo trecho porém um pouco acima, perto da Rua Peçanha.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Octacílio Negrão de Lima, 1937.

    Desse ponto até as suas nascentes o córrego do Pastinho continuou correndo no seu leito natural, pois as suas vertentes não estavam tão adensadas como as áreas mais próximas da sua foz, como se vê na planta de 1940.


O Vale do Córrego do Pastinho, em parte da Planta Cadastral de 1940.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997. 

    Na gestão JK (1940-1945) teve continuidade os trabalhos de canalização do córrego, pois a avenida era tida como a principal ligação do centro da capital com o aeroporto Carlos Prates. O acesso aos bairros da vertente direita do córrego também melhoraram, o acesso antes era feito apenas pela Rua de Contagem (Padre Eustáquio).
    É nos anos 40 que temos de fato o inicio do constante e sistemático adensamento populacional das vertentes do córrego do Pastinho. Devido à melhoria dos transportes públicos com a implantação dos ônibus urbanos a população passou a se instalar nas vilas mais afastadas da área central da capital, aonde os lotes e o custo de vida eram mais baratos em relação aos bairros da zona urbana dentro dos limites da Avenida do Contorno. O constante crescimento urbano para oeste obrigou o Poder Público a promover melhorias urbanas nessas zonas da capital e uma das principais intervenções da Prefeitura nos anos 50 foi o prolongamento da Avenida Pedro II, como se vê em parte do relatório de 1953:

“Essa avenida deverá ser prolongada e alargada. Partindo da praça da Feira de Amostras. Indo até o Aeroporto de Carlos Prates, onde se bifurcará em 2 ramos, um para a Pampulha e outro na direção da Ressaca. Será alargada para 50 metros e receberá o movimento da região da Ressaca, Villas D. Bosco, Ipanema, Bela Vista, Futuro, Celeste Império, Santos Dumont, Petrópolis, Santana e grande parte do bairro Carlos Prates. Por ela também seguirá, devidamente canalizado o córrego do Pastinho” (Relatório do Prefeito Américo Rene Giannetti, 1953 p.26).

    A ocupação acelerada a partir dos anos 60 da Avenida Pedro II por estabelecimentos comerciais a consolidou como um dos principais eixos de ligação da região nordeste com o centro da capital. A região, antes puramente residencial começa a mudar de fisionomia com os galpões e os comércios, uma requalificação urbana que viria a consolidar a região, anos mais tarde como um dos Subcentros urbanos da capital. Os emissários e coletores de esgotos não comportavam tal crescimento e os efluentes passaram a ser despejados em maior quantidade no córrego do Pastinho cujas águas já se encontravam poluídas. Nessa década a Prefeitura priorizou a cobertura dos córregos que atravessavam a área central de Belo Horizonte, se limitando a fazer apenas alguns reparos nos revestimentos e limpezas nos cursos d’água. Com o aumento do fluxo viário a Prefeitura passou também a considerar necessário o alargamento da Avenida Pedro II. É nessa década que se inicia a abertura da Avenida Carlos Luz, importante via de ligação da região com a Pampulha e a canalização do córrego que se encontra atualmente sob a avenida.


Avenida Pedro II e Córrego do Pastinho nos anos 60.
Fonte: APCBH/ASCOM


Abertura da Avenida Carlos Luz no final dos anos 60.
Fonte: APCBH/ASCOM

    Em 1970 iniciam se os estudos para o prolongamento e alargamento da Avenida Pedro II assim como a cobertura do córrego do Pastinho. Em 1973 é realizada a canalização do Pastinho acima da Rua Progresso até as proximidades do Anel Rodoviário, abrangendo as suas nascentes.
   No ano de 1975 inicia-se o processo de cobertura do córrego do Pastinho entre as ruas Peçanha e Jaguari, visando o melhor escoamento do tráfego intenso da Avenida Pedro II. Ao mesmo tempo teve inicio o alargamento das galerias de concreto armado sob a avenida, desde a Rua Jaguari até a Rua Progresso e a construção de galerias auxiliares ao longo da avenida. Além disso, foi feita uma saída auxiliar na foz do córrego do Pastinho no Ribeirão Arrudas com a finalidade de se resolver os sérios problemas ocasionados pelas enchentes anuais do Arrudas. Suas águas represavam as do Pastinho, impedindo a sua vazão e em conseqüência alagava toda a área nas proximidades da sua foz. No final dos anos 70 é concluída a duplicação da avenida até as proximidades da Rua Vila Rica.


Canalização do Córrego do Pastinho em 1972.
Fonte: SANEAMENTO básico em Belo Horizonte: trajetória em 100 anos - Coleção Centenário, FJP


Obras de prolongamento da Avenida Pedro II, nas proximidades da Rua Progresso.
Fonte: APCBH/ASCOM

    A historia do córrego do Pastinho é idêntica a dos outros cursos d’água¹ “malditos” abordados nos artigos anteriores: inicialmente utilizado pelos colonos da antigas colônias agrícolas que foram estrategicamente assentadas nos vales para facilitar o acesso a água, necessária para o desenvolvimento agrícola das colônias. Depois de anexadas, a região passou a crescer desordenadamente e em pouco tempo os cursos d’água já sofriam com a poluição de suas águas. Nas décadas seguintes com o processo de metropolização de Belo Horizonte eles passaram a ser indesejados tanto pelo Poder Público, que via os córregos como um entrave no desenvolvimento urbano e viário, como para a população, que enxergava nos córregos um depósito de lixo e imundices a céu aberto e que deveria ser erradicado da paisagem o quanto antes, em beneficio do bem estar e da salubridade.
    Atualmente a grande maioria dos córregos de Belo Horizonte correm sob as ruas e avenidas, canalizados e erradicados do meio urbano. Dos afluentes do Ribeirão Arrudas os únicos córregos que ainda correm a céu aberto até as proximidades da foz são os Córregos do Cercadinho/Ponte Queimada, cujas nascentes estão localizadas no bairro Buritis e o Córrego do Bonsucesso, com sua nascente no bairro Olhos D’água, regiões que tiveram a ocupação iniciada de fato há cerca de 30 anos².
   Os córregos de maior volume d’água, poluídos ou não sempre existirão sob a malha urbana da capital. Esquecidos? Sim. Malditos? Nunca!


Trajeto atual do Córrego do Pastinho e de seus afluentes.
Fonte: Google Earth


Foz do Córrego do Pastinho em frente a Rodoviária.
Fonte: Foto do Autor


Avenida Pedro II no cruzamento com Rua Jaguari em Março de 2011.
Fonte: Foto do Autor


O mesmo cruzamento em Março de 2011.
Fonte: Foto do Autor


Mapa da Sub-Bacia do Córrego do Pastinho.


¹ Além dos cursos d’água abordados citarei alguns que também se encontram completamente canalizados, tais como o Córrego do Tejuco, Piteiras, da Mata, Lagoinha, Cardoso, Mangabeiras, Taquaril, Gentio, Navio etc. Posteriormente escreverei sobre eles e publicarei algumas fotos da foz de alguns deles no Arrudas.

² A região do Olhos D’água na verdade tem as suas origens no povoado de mesmo nome que ali existiu e que era responsável por parte do abastecimento de verduras e legumes do arraial do Curral del Rey e posteriormente de Belo Horizonte. Com o crescimento da malha urbana da capital o Povoado, como tantos outros que existiram ao redor da capital foram absorvidos pela malha urbana e anexados à cidade, transformando-se em bairros.

Trabalhos de tubulação do Ribeirão Arrudas em 1895 nas imediações da Praça da Estação onde se vê as duas primeiras bicicletas que chegaram ao arraial de Belo Horizonte.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

    15 de Abril é o Dia do Ciclista. A bicicleta, como se vê na imagem acima sempre esteve presente no cotidiano do belorizontino desde a construção da capital. Ela figurava nos primeiros anos da nova capital como uma alternativa para o deslocamento da população, pois o transporte público ainda engatinhava e as áreas atendidas pelos Bondes se restringiam a área central e o bairro Funcionários.
   Com a popularização do automóvel individual ao longo dos anos e a incrementação do transporte coletivo, ainda que deficitário devido ao rápido crescimento urbano a bicicleta foi sendo deixada de lado, sendo utilizada apenas em pequenos deslocamentos ou no dia a dia por uma pequena parcela da população, geralmente a de baixa renda. A necessidade do rápido deslocamento da população também contribuiu para a diminuição do uso da bicicleta como meio de transporte diário. Ao longo das décadas a cidade cresceu, inflou, a área central de Belo Horizonte passou a não comportar mais o numero cada vez maior de veículos.
   O adensamento populacional, antes restrito na área central se espalhou pelos bairros adjacentes e em conseqüência o pedestre e o ciclista foram perdendo cada vez mais espaço para os automóveis. A bicicleta, para muitos iria servir apenas para lazer e para as crianças se divertirem tal a falta de incentivo e espaço para o seu uso e circulação.
    A popularização das bicicletas com um maior numero de marchas (Mountain Bikes) a partir dos anos 90, paralelamente as discussões sobre o meio ambiente e a qualidade de vida nos grandes centros urbanos retomou-se o conceito do uso da bicicleta como uma alternativa para a diminuição do uso dos automóveis, visando desafogar o transito e contribuindo para a melhoria da qualidade do ar entre outras coisas.
   A bicicleta é uma ótima alternativa para o caótico transito de Belo Horizonte. Tanto ela quanto o transporte coletivo deveria receber uma maior atenção do Poder Público, pois o rodízio de veículos e o incentivo no uso da bicicleta são as melhores soluções para a diminuição do transito na capital. A construção de mais ciclovias para difundir o uso da bicicleta se faz necessária para incentivar a população a usar tal meio de transporte. Atualmente, competir com os veículos motorizados é uma tarefa apenas para os corajosos amantes da bicicleta e para quem já a adotou como o principal meio de transporte.
    Belo Horizonte tem atualmente 22 km de ciclovias localizadas nas avenidas Tereza Cristina, Andradas, Saramenha, Deputado Álvaro Camargo, Vilarinho e na Orla da Lagoa da Pampulha, ou seja, são ciclovias fragmentadas utilizadas na sua maioria por pedestres ou para lazer. O Poder Público, ao que parece já se conscientizou da necessidade do incentivo da bicicleta como meio de transporte alternativo como se lê na citação abaixo, em conformidade com uma boa parcela da população mundial que já utiliza a bicicleta como alternativa.

“A BHTRANS reconhece os benefícios do uso da bicicleta como meio de transporte para a cidade e para os cidadãos. Além de desafogar o trânsito, a bicicleta não polui, promove a melhoria da saúde de quem pedala, é um veículo de baixo custo de aquisição e de manutenção, é silencioso e flexível em seus deslocamentos”.

    O projeto Pedala BH, lançado no inicio de 2011 tem como objetivo promover ou resgatar o uso da bicicleta na capital, criando facilidades para quem optar por esse meio de transporte. Está planejada a construção de cerca de 365 km de ciclovias espalhadas por toda Belo Horizonte interligadas com as Estações de Metrô, facilitando assim o deslocamento em curta distancia para quem optar também pelo uso dos trens urbanos. Atualmente as ciclovias das Avenidas Américo Vespúcio e Risoleta Neves e da Rua Professor Morais e Bernardo Monteiro estão em fase de implantação. O novo Plano Diretor de Belo Horizonte também orienta para a construção de ciclovias no vale do ribeirão Arrudas. Segundo o Projeto as ciclovias irão ocupar inicialmente a calha dos córregos (fundos de vale) que cortam a capital, hoje canalizados.


Projeto da Rota Cicloviária Leste.
Fonte: PBH/BH TRANS


Projeto da Roda Cicloviária Noroeste.
Fonte: PBH/BH TRANS


Projeto da Rota Cicloviária Américo Vespúcio.
Fonte: PBH/BH TRANS

    A necessidade de conscientização da população para o uso de um transporte alternativo se faz necessária, pois a maioria dos motoristas vêem o ciclista como um empecilho em meio ao caótico transito belorizontino. Observa-se que a maioria acredita que as vias foram feitas para automóveis, desconhecendo os reais motivos que levaram a Comissão Construtora a conceber a Planta da capital nos moldes que conhecemos. Além disso, a cidade não foi projetada para automóveis, recém inventado naquele momento, ela foi projetada visando à qualidade de vida da população e a salubridade, entre outras finalidades na qual não se tem necessidade de expor aqui nesse momento.
     Atualmente o ciclista é visto pela maioria dos motoristas como “persona non grata” no trânsito da capital, um obstáculo no fluxo viário. Por isso é que vemos tanto desrespeito ao ciclista diariamente, que são obrigados a se defenderem como podem das “feras de aço”.
     Finalizando: “mataram” o transporte coletivo (leia-se ferrovias ou tudo que se movimenta sobre trilhos) para viverem engarrafados dentro de si no cotidiano viário. Ainda há tempo de reverter esse quadro, falta apenas iniciativa e boa vontade para investir e afastar todo e qualquer tipo de interesse individual que persiste em atrasar o desenvolvimento urbano. E tomara que toda a malha cicloviária realmente saia do papel.


Projeto da Ciclovia Savassi (Rua Professor Morais e Avenida Bernardo Monteiro).
Fonte: PBH/BH TRANS


Implantação da Ciclovia na Rua Professor Morais em Abril de 2011.
Fonte: Foto do Autor.


Implantação da mesma Ciclovia.
Fonte: Foto do Autor.


Folder explicativo da BH Trans sobre o espaço destinado aos veiculos e pedestres na Rota Cicloviária Leste.
Fonte: PBH/BH TRANS

Parte da Planta de 1895 onde se vê em destaque o Córrego dos Pintos.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

    O Córrego dos Pintos  é um dos cursos d’água pertencentes à bacia do Ribeirão Arrudas, afluente da sua margem direita¹. Totalmente canalizado em toda a sua extensão ele tem as suas nascentes localizadas nas encostas do bairro Gutierrez, nas proximidades da Rua Benjamin Jacob. A outra nascente se localiza nas proximidades da Avenida Raja Gabaglia, perto do Circulo Militar. Esse curso d’água seguia mais ou menos paralelamente à Avenida André Cavalcanti, indo-se juntar ao curso principal pouco abaixo do cruzamento desta avenida com a Avenida Francisco Sá. Nesse mesmo local existiu o arraial ou povoado dos Pintos, núcleo contemporâneo do arraial do Curral del Rey e demolido somente nos anos 30 devido a expansão urbana para essas áreas². A partir daí o córrego seguia o seu curso pelo vale onde foi aberta a Avenida Francisco Sá e Rua Jaceguai indo desaguar no Arrudas no local onde foi construída anos mais tarde a fábrica de móveis Minart.


O córrego dos Pintos e o arraial na Planta Geodésica e Topográfica de 1895.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

    Com exceção de algumas pontes construídas, como por exemplo, a ponte da Rua Erê, principal ligação do arraial do Calafate com a área central de Belo Horizonte nas primeiras décadas do Século XX e das casas ao longo de sua vertente na Avenida do Contorno o córrego manteve o seu leito praticamente intacto ate o inicio dos anos 30. A notável expansão urbana que se dá na capital a partir dessa década, motivada principalmente pelas inúmeras vilas que foram surgindo ao redor da zona urbana obrigou o Poder Público a investir nas áreas reservadas para expansão urbana e que na sua maioria pertenceu às terras das antigas colônias agrícolas, anexadas à zona suburbana no começo da década de 10 (o vale do córrego dos Pintos pertenceu a antiga colônia Carlos Prates).


O vale do córrego dos Pintos e o arraial em destaque na Planta Cadastral de 1928.
Fonte: APCBH

    No inicio de 1935 teve-se o inicio da canalização do córrego, desde a sua confluência com o Arrudas até a Rua Platina. Em 1940 com o prolongamento da Avenida Amazonas a canalização foi estendida até o cruzamento desta avenida. Sobre o córrego canalizado abriu-se a Avenida Francisco Sá, como lemos na citação abaixo, de 1940:

“O inicio da canalização do Córrego dos Pintos, em 1940, foi determinado pelo prolongamento da Avenida Amazonas, rumo ao grande centro industrial mineiro, que, em breve, será o Parque Industrial do Ferrugem, projetado e construído pelo governo do Estado. Cortando a citada corrente, foram as suas águas canalizadas em tubos de concreto armado, para que sobre eles passasse a avenida Amazonas. Fizeram-se então 97,00 metros de canalização. Mas, iniciado p serviço, chegamos à conclusão que todo o córrego dos Pintos deveria ser canalizado, isto é, do trecho já feito sob a avenida Amazonas, à rua Platina, pois dali até o Arrudas os trabalhos já se achavam concluídos. E sobre o leito do córrego, retificado e canalizado pelo sistema coberto, vem sendo aberta a avenida Francisco Sá”.(Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira, 1941).


Canalização do córrego dos Pintos em 1940.
Fonte: APCBH Relatório do Prefeito Juscelino Kubitschek de Oliveira,1941.


Vista das vertentes do córrego dos Pintos a partir da Caixa d'água do Barroca (Pedra Bonita). À direita uma pequena parte da Olaria que existiu no arraial dos Pintos.
Fonte: BH Nostalgia

    A canalização de fundo de vale propicia uma ocupação mais sistemática das vertentes de um curso d’água além de permitir a abertura de vias (Avenidas Sanitárias) que melhoram o escoamento do trânsito e proporcionam alternativas em caso de congestionamentos. Na maioria das vezes essas avenidas tornam-se o principal eixo de ligação entre as vias arteriais, responsáveis pela ligação centro-bairro e as vias locais. Podemos citar a Avenida Prudente de Morais e a Avenida Silviano Brandão como exemplos de vias coletoras construídas em fundo de vale. No caso do córrego dos Pintos a sua canalização facilitou a ocupação das suas vertentes, primeiramente a área compreendida entre o reservatório dos Pintos (Pedra Bonita) e a Avenida Francisco Sá. Nas décadas seguintes com o adensamento do bairro Gutierrez a canalização foi estendida até as suas nascentes além da necessidade de ampliação das suas galerias até o ribeirão Arrudas. Ao mesmo tempo em que o córrego era canalizado a Avenida Francisco Sá era estendida sobre ele, tornando-se a principal ligação entre o bairro Gutierrez e a área central. Na década de 90 o córrego foi novamente descoberto para a ampliação da galeria na Avenida Francisco Sá.


Canalização do córrego dos Pintos na Rua Jaceguai.
Fonte: APCBH/ASCOM


Canalização do córrego dos Pintos nas proximidades da confluência com o Arrudas. Ao fundo a Avenida Teresa Cristina.
Fonte: APCBH/ASCOM


Canalização do mesmo córrego na Avenida Francisco Sá.
Fonte: APCBH/ASCOM


Canalização do córrego dos Pintos na confluência com o Arrudas. Atualmente o córrego neste local está sob o quarteirão compreendido entre a Avenida Teresa Cristina e Rua Ituiutaba.
Fonte: APCBH/ASCOM

Canalização (alargamento) da calha do córrego dos Pintos na Avenida Francisco Sá em 1966. As obras executadas nesse período faziam parte do projeto Nova BH 66. 
Fonte: APCBH/ASCOM

     O córrego dos Pintos faz parte dos cursos d’água esquecidos pela capital uma vez que a sua canalização foi iniciada há mais de setenta anos ocultando-o completamente da paisagem urbana e inserido nos quase 200 quilômetros de canalizações em canal fechado existentes sob as vias urbanas de Belo Horizonte. Como acontece com outros cursos d’água da capital, periodicamente nos períodos de chuva as enchentes são inevitáveis e consequentemente problemáticas, pois o volume d’água que escoa das vertentes é grande devido principalmente a impermeabilização do solo, apesar de muitas ruas dos bairros Gutierrez e Barroca serem calçadas, o que felizmente permite a penetração de parte da água no solo. São cursos d’água lembrados pelo Poder Público apenas nesse período, ainda que a maioria da população desconheça a sua existência sob as vias.


Traçado atual do córrego dos Pintos nos bairros Gutierrez e Prado.
Fonte: Google Earth


Foz do córrego dos Pintos na Avenida Teresa Cristina.
Fonte: Foto do Autor


Mapa da sub-bacia do córrego dos Pintos.

* Adoto o topônimo "Pintos" por causa do "Arraial do Pinto", habitado por inúmeros membros da família Pinto, ainda que nas plantas da CCNC seja utilizado o topônimo "Pinto" para o curso d'água e no relatório de JK (1941) seja usado "Pintos".

¹ Impressiona o pesquisador a falta de critério em relação aos nomes dos cursos d’água da capital. Com exceção dos córregos que atravessam a área planejada dentro dos limites da Contorno os outros cursos d’água existentes, na sua maioria, simplesmente constam nas cartas confeccionadas pela Prefeitura como “sem nome” ou com os nomes trocados. Muitos deles aparecem com dois ou três nomes ao longo do seu curso, adotando sempre o nome das ruas ou avenidas que existem sobre ele. Se o curso d’água não deixou de existir não justifica, propositalmente, trocar o seu nome ou simplesmente esquecê-lo, lembrando que grande parte das denominações dos córregos foram dadas há mais de duzentos anos, em conformidade com a tradição portuguesa na escolha dos nomes (Toponímia). Atualmente se encontram disponibilizadas em meio digital as cartas e plantas cadastrais de Belo Horizonte, inclusive as confeccionadas pela Comissão Construtora no final do Século XIX. Isso facilitou o acesso a estes documentos evitando assim algumas burocracias perante os órgãos detentores das plantas e cartas citadas. Poucas horas de pesquisa são suficientes para corrigir todos os lamentáveis equívocos que se vê nas cartas atuais das sub-bacias de Belo Horizonte e região.

² Certamente o fato das terras do povoado terem sido inseridas na colônia agrícola Carlos Prates ajudou a prorrogar a sua existência até meados dos anos 30, data do inicio do seu desaparecimento. O povoado dos Pintos é um exemplo da persistência do rural nas áreas destinadas à zona suburbana de Belo Horizonte, visto que a Olaria que existia no povoado (na área abaixo ao Tribunal de Pequenas Causas) desde o Século XIX foi demolida somente no final dos anos 40.

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis