Parte da Planta Geodésica elaborada pela CCNC em 1895 na qual foi destacada a área referente as terras da Colônia Carlos Prates, fundada em 1898.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

As Colônias Agrícolas foram criadas em 1898 pela Repartição de Terras e Colonização do Governo com a finalidade de assentar os imigrantes e parte da população impedida de se instalar dentro dos limites da Avenida do Contorno e de fornecer os víveres necessários para o abastecimento da capital, uma espécie de Cinturão Verde em torno de Belo Horizonte. As Colônias foram instaladas na Zona Suburbana, contrariando o projeto da Comissão Construtora que havia criado a zona para ser uma transição entre o urbano e o rural, os Sítios que se localizariam em terras mais afastadas do núcleo urbano e forneceriam os alimentos para a capital. No inicio da década de 1910 as colônias apresentavam um acentuado crescimento em relação à Zona Urbana e para regularizar e tentar ordenar esse crescimento a Prefeitura resolveu anexá-las à Zona Suburbana em 1911. Devemos lembrar que Belo Horizonte, desde a sua fundação apresentou um crescimento periferia-centro, contrariando as estimativas que previam um crescimento ordenado centro-periferia. A Colônia Carlos Prates de todas foi a que mais cresceu nos anos seguintes, como veremos nas imagens abaixo.

Ex Colônia Carlos Prates em 1920.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte: FJP. 1997. 103 p.

O mapa acima faz parte da Planta Cadastral de Belo Horizonte, elaborada em 1920 na gestão do Prefeito Affonso Vaz de Melo. Essa Planta, de extrema importância para a Prefeitura foi à primeira planta da capital confeccionada desde 1895 e apresenta dentro da rede de triangulação feita pela Comissão Construtora as zonas urbana e suburbana. Sobre a confecção da Planta escreveu o chefe do Tombamento da Prefeitura, João Gomes: “ela conterá todas as alterações feitas no primitivo traçado da cidade e todas as subdivisões de terrenos particulares que, approvadas pela Prefeitura, passaram a fazer parte da Planta Cadastral (...)”. A planta depois de pronta permitiu a Prefeitura ajustar a cobrança de impostos sobre cada terreno devido à regularização das metragens.
O mapa é parte da dita Planta na qual se destaca a ex Colônia Carlos Prates, incorporada à zona suburbana em 1911 e parte das 8ª e 9ª Seção Urbana, ainda despovoada. Na ex colônia ainda se via em 1920 a maioria dos terrenos com as suas metragens originais, da época da sua fundação. Esses terrenos se concentravam principalmente nas vertentes dos vales do Córrego do Pastinho e do Ribeirão Arrudas, além de uma pequena parte do Córrego dos Pintos, córrego que está atualmente sob a Avenida Francisco Sá. Com a incorporação da colônia a zona suburbana em 1911 teve inicio o desmembramento dos terrenos, como podemos ver ao longo da Rua de Contagem (a Rua Padre Eustáquio é na verdade a antiga estrada para Contagem). Até 1920 a ocupação se deu de uma forma mais lenta, só a partir de 1925 com a explosão de loteamentos por toda a zona suburbana é que se teve um maior adensamento da ex colônia, como vemos na imagem abaixo, um fragmento da Planta de 1928/1929 elaborada na gestão do Prefeito Christiano Machado.

Parte da Ex Colônia Carlos Prates na Planta Cadastral de 1928/1929.
Fonte: APCBH

Grande parte dos terrenos haviam sido loteados e transformados em vilas, atrativas para a população de menor poder aquisitivo devido ao baixo valor dos lotes, diferentemente da zona urbana que vivia um período de intensa especulação imobiliária, tema abordado em artigos anteriores. Já a Rua de Contagem continuou a ser o eixo divisor dos loteamentos devido a sua posição geográfica, no divisor de águas entre o Ribeirão Arrudas e o Córrego do Pastinho e era estratégica no que diz respeito ao fluxo populacional, pois os Bondes que ligavam o bairro e as vilas ao centro da capital seguiam pela via cortando praticamente toda a área habitada. Mais a esquerda na Planta vemos o ramal férreo da EFOM, posteriormente RMV que deu origem a Rua do Ramal ou Mauá de Cima, atual Nossa Senhora de Fátima. Com o adensamento do bairro a linha se tornou um fator de risco para a população e os acidentes aconteciam com regularidade¹. A linha foi retirada somente no inicio dos anos 60 na administração Jorge Carone. Outra característica dessa planta do final dos anos 20 é que partes das vilas ainda se encontravam em construção, constando apenas no mapa assim como uma parte da zona urbana.

Rua Mauá, atual Nossa Senhora de Fátima no cruzamento com Rua Peçanha. Foto do final dos anos 50.
Fonte: APCBH/ASCOM

O mesmo cruzamento nos dias atuais.
Fonte: Foto do Autor

Nas décadas seguintes com o fechamento do Córrego do Pastinho e melhoria dos equipamentos fornecidos pelo Governo quase toda a totalidade das terras da antiga colônia foram ocupadas sendo que grande parte do comercio e serviços se concentraram nas vias de maior movimento – Rua Padre Eustáquio no topo da vertente e a Avenida Pedro II no fundo do Vale. A população se concentrou, em sua maioria na vertente entre estas duas vias e no entorno do ramal férreo. Nas duas ultimas décadas o bairro que sofria um processo de estagnação passa, já há alguns anos por uma verticalização que poderá alterar toda a composição atual do bairro, o predomínio de casas de um ou dois pavimentos além de adensar ainda mais a região que sofre com os constantes engarrafamentos causados, na sua maioria pela falta de vias mais largas. As ruas Rio Pomba e Três Pontas eram vias locais que, devido à necessidade de melhoria do fluxo viário acabaram sendo adaptadas em vias coletoras. A necessidade de alargamento das vias é um fator a ser considerado em estudos futuros, pois resolveria grande parte dos problemas que se verificam nos horários de pico, mas que afetaria profundamente a composição do bairro, inclusive pela sua arquitetura.
Na imagem abaixo, do ano de 2008 podemos ver que as terras da ex colônia se encontram completamente adensadas (desde muito tempo). Pela proximidade do centro da capital e para conter a verticalização a Prefeitura propôs a mudança de zoneamento dessas áreas (de ZAP para ZA). Essa medida certamente será bem vinda, pois preservará os resquícios da arquitetura residencial da qual ainda temos inúmeros exemplos apesar da especulação imobiliária que substitui as casas por edifícios residenciais e comerciais.

Imagem de Satélite da ex colônia Carlos Prates na qual procurei mostrar a posição dos vértices traçados pela Comissão Construtora em 1895.
Fonte da imagem: Google Earth

Montagem feita a partir de algumas imagens dos resquícios arquitetônicos ainda existentes no bairro Carlos Prates.
Fonte: Fotos do Autor

Vista parcial de parte do bairro Carlos Prates, na vertente do Córrego do Pastinho. Destaca-se entre as casas residenciais vários edificios em construção, um sinal do inicio da verticalização acentuada do bairro.
Fonte: Foto do Autor


¹Belo Horizonte teve sérios problemas até os anos 70 por causa da sua malha ferroviária que cortava, entre a Praça da Estação e a região do Calafate inúmeras ruas e em conseqüência disso rara era a semana que não ocorresse um acidente. A pressão da população belorizontina sobre o Governo aumentou a partir de 1960 levando os órgãos responsáveis a desviar a linha da RMV (Rede Mineira de Viação) da Rua Mauá além da construção de viadutos, eliminando grande parte das passagens de nível que existiam nessa região.

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