As oficinas Christiano Ottoni na década de 1920.
Acervo do Autor

   Os centenários galpões das Oficinas Christiano Ottoni, batizadas com o nome do patrono da engenharia brasileira, passam atualmente por uma profunda reforma para se adequarem à demanda do Tribunal Regional do Trabalho, que ocupará os edifícios da antiga Escola de Engenharia da UFMG.
    "Escondidas" da grande maioria da população belorizontina, exatamente por se localizarem em uma rua "invisível" para uma cidade que a frequenta(va) arduamente, as oficinas integram o importante conjunto urbanístico da Praça da Estação, a velha porta de entrada da capital.
     A pequena postagem tem o intuito de chamar a atenção não só para a reforma do singular edifício, mas também para o importante patrimônio guardado pelo baixo centro, e ainda para a história do engenheiro natural da Vila do Príncipe e irmão de Teófilo Ottoni, um dos cabeças da Revolução de 1842. Sua história se confunde com a história das ferrovias brasileiras, tão esquecidas e marginalizadas quanto os galpões e belezas mais de uma via de histórias incríveis, talvez as mais singulares de uma urbe de estranhos ares aristocráticos e provincianos.

As oficinas na década de 1950
Acervo UFMG

As oficinas após a reforma do edifício e construção de um anexo.
Foto do Autor



     Transbordamento do Arrudas na Praça da Estação no 
ano de 1977, período em que as enchentes e as tragédias 
faziam parte do cotidiano da capital.
Acervo EM


      Às margens do período das chuvas que já transbordam sobre a capital mineira, como visto no ultimo domingo (25/09/16), uma precipitação rápida e de intensidade até notável, mas inaceitável pelos transtornos causados e vidas perdidas, onde figura como um exemplo notável e ao mesmo tempo absurda a chuva de fevereiro desse ano, que causou uma morte na Rua Diorita, em um local onde as águas pluviais vertem diretamente para o ribeirão Arrudas, expondo todo o problema (ou precariedade) da drenagem urbana da capital mineira.

       Mas tudo isso tem uma explicação que se tornou óbvia ao longo das pesquisas para o livro Rios invisíveis da metrópole mineira, já recomendando a sua leitura visto que a exposição aqui será bem breve e sucinta.




Gráfico da precipitação mensal e o normal climatológico (média dos 30 anos, nesse caso 1961-1990) em Belo Horizonte nos triênio 2014-2016, até o momento. Detalhe para as variações nos períodos chuvosos, cujas precipitações, em condições de drenagem satisfatória, nunca acarretariam os transtornos que abatem sobre a cidade.
E acima de tudo, preparem para o período Antropoceno.
Fonte: INPE

       Após a conclusão das primeiras canalizações, que suprimiu o leito natural e as várzeas (planícies de inundação, o segundo leito do curso d’água, destinado a comportar as águas nos períodos de cheia), no primeiro período chuvoso que se sucedeu, todos os cursos d’água que nunca apresentaram “problemas” para a capital saíram do seu canal artificial, arrasando locais que anteriormente não sofriam com as enchentes, fenômeno natural que consiste no transbordamento das águas dos cursos d’água, normalmente ocorrendo nos períodos chuvosos. Ou seja, a tão vendida técnica da canalização, técnica ultrapassada e incrivelmente atual, vendida como a solução única para as enchentes, se mostrou inviável de ser adotada e deveria ser imediatamente abandonada, pois a canalização não resolvia o “problema” dos transbordamentos, e sim potencializava o seu poder de destruição em uma cidade que já começava a marginalizar as suas águas em prol de um suposto progresso.

       Obviamente a técnica não foi descontinuada, pois, altamente lucrativa, incrementava a renda dos empreiteiros e construtores que começavam a escalada de poder na capital, culminando na tão clara e obscura submissão das administrações municipais.


Três momentos de um rio urbano para auxiliar na compreensão da potencialização dos transbordamentos a partir da intervenção humana: 
à esquerda o rio em seu leito natural e suas várzeas, e à direita o rio 
canalizado a céu aberto ou sob a cidade.
Fonte: Arch Urbs

Canalização do córrego da Serra no ano de 1929, 
o primeiro curso d'água canalizado sob a cidade.
Acervo do Autor


Enchente de 1947 na Lagoinha.
Acervo EM


O ribeirão Arrudas em Marzagão (Sabará) no ano de 1953.
Detalhe para suas várzeas, destacando-se a porção ocupada 
pelo campo do Marzagão Atlético Clube, um dos famosos 
"campos de várzea" que não foram engolidos pela voracidade 
imobiliária e viária.
Acervo APCBH

       No decorrer das décadas, metropolização etc. os transbordamentos se tornaram mais frequentes, ao mesmo tempo em que, coincidentemente, a canalização era gradativamente imposta no restante do município, proporcionando a ocupação de terras marginalizadas, agora altamente lucrativas para o município e para os agentes fundiários, sedentos desde sempre por terras para se especular. Não esquecendo da imposição rodoviarista desencadeada na década de 1950 que se impôs perante a cidade, ocupando espaços antes ocupados pela população e pelos elementos naturais. No caso dos transbordamentos, as tragédias se tornariam mais frequentes nas décadas de 1960 e 1970, culminando com a centenária enchente de 1983, da qual muitos ainda guardam em suas lembranças uma Belo Horizonte destruída, faminta e extremamente vulnerável ao turbilhão hidráulico criado por um Poder Público submisso e incompetente.


Pela lógica rodoviarista, esse é o espaço destinado 
às pessoas na cidade, uma questionável inversão de 
valores visto que a cidade pertence as pessoas e não aos 
veículos automotores, ainda vistos como símbolo de distinção social.
Fonte: Desconhecida


O ribeirão Arrudas em frente a Mannesmann no ano 
de 1958.
Acervo IBGE


Ribeirão Arrudas no ano de 1964, Ponte do Bedeco. 
O modesto ribeirão, de pequena vazão, não dava mais conta 
de transportar para fora da "Cidade Oficial" toda a água 
drenada das bacias impermeabilizadas, os esgotos e os 
detritos da iminente metrópole. Acervo EM

Estragos causados pela enchente de janeiro de 1983 
na Avenida Mem de Sá (córrego do Cardoso). 
Acervo Rios invisíveis da metrópole mineira/Laudelina Garcia.

       As canalizações normalmente tem vida curta exatamente por serem meros paliativos. Não duram mais do que vinte anos, sendo necessárias intervenções não só para retirar sedimentos, detritos etc. carregados pelas águas e pelos esgotos (sim, os rios urbanos sob os nossos pés se tornaram emissários de esgotos, caso não saibam), mas também alargamentos e aprofundamentos de galerias, construção de canais paralelos, canais de transposição etc. Tudo isso em busca de uma melhoria hipotética na drenagem urbana, onde os empreiteiros atingem lucros astronômicos e a cidade acredita que os seus problemas terminaram, pelo menos até o próximo ano, quando caem novamente na realidade. Se tais técnicas persistirem por mais algumas décadas, onde iremos parar? A única certeza que tenho é que existirá uma cidade subterrânea na bacia do Arrudas, na bacia da Onça as canalizações continuarão“comendo pelas beiradas”, infelizmente.

       Estamos novamente nesse período critico (ou nunca saímos dele?), onde mais uma vez estão sendo vendidas como solução única barragens de retenção, canalizações e avenidas sanitárias, técnicas que já se mostraram inúteis há mais de oitenta anos, a não ser quando se constrói um canal de mais de vinte metros de largura abaixo da ponte do Perrela (ribeirão Arrudas) para comportar toda a água drenada das vertentes impermeabilizadas para o ribeirão. A largura do canal mostra a extensão da incompetência pública para lidar com a questão, que não entende (ou finge não entender) que as águas que vem do céu tem que ficar onde caem, contribuindo para um clima ameno, para a recarga dos aquíferos e para o equilíbrio das enchentes. Não é atoa que Belo Horizonte em suas primeiras décadas, com suas águas e com o seu verde, uma verdadeira floresta urbana, proporcionava a cura de moléstias pulmonares e apresentava uma espessa névoa nas frias manhãs de inverno. Atualmente as pessoas por aqui sucumbem das mesmas doenças que antes vinham tratar. Uma bizarrice sem tamanho.



O Acaba Mundo extrapolando o seu canal artificial 
nas chuvas de 1999. 
Acervo do Autor

O asfalto sobre o rio ou o rio sobre o asfalto?
Avenida Silva Lobo em data desconhecida.
Fonte: Desconhecida

O ribeirão Arrudas em um chuvoso ano de 2011. 
Ao modesto ribeirão foi imposto um canal de mais 
de vinte metros de largura,para comportar toda a 
incompetência dos administradores da capital.
Foto do Autor

Via Expressa Leste-Oeste no inicio de 2016, 
ou talvegue do córrego do Tejuco.
Foto do Autor

Resultado de um pequeno temporal no ano de 2016, 
no viaduto sobre o córrego das Piteiras 
(Avenida Silva Lobo).
Foto do Autor

       Para quem não acredita que existem alternativas, (já recebi inúmeras mensagens questionando sobre a “utopia dos rios invisíveis”, mensagens perfeitamente compressíveis diante da lavagem cerebral que vem sendo realizada há mais de meio século), as soluções existem aos montes. Existem exemplos regionais e principalmente estrangeiros que mostram que uma real reabilitação é possível e necessária, e que seria bem menos onerosa! do que as tão afamadas obras de canalização e agregados. E apesar do singular programa Drenurbs, as canalizações continuam a pleno vapor, ou seja, enquanto persistir essa ideia de conversão de águas urbanas em avenidas a cidade continuará a assistir e a sofrer com as consequências da imposição de uma técnica ultrapassada e lucrativa.

       Vocês já imaginaram um parque linear ao longo do Arrudas (e não aquele projeto ridículo de cobrir o seu leito com áreas de lazer), um Arrudas reabilitado, livre dos esgotos, com áreas para pesca (sim, isso é possível!) e conectado com seus afluentes também reabilitados a partir do Parque Municipal¹, que disseminaria o verde através de “conexões hidrográficas”, contribuindo para a reversão, ainda que parcial, de toda a impermeabilidade da cidade? Parece utopia, mas é perfeitamente possível se abrirmos a mente para novas ideias e métodos estudados e aplicados pelo planeta e mesmo por aqui. Um parque linear comportaria, na maioria das vezes, nos períodos chuvosos o transbordamento dos cursos d’água, além de promover um reencontro da cidade com suas águas através da ocupação das várzeas nos períodos de estiagem, e com um planejamento viário decente as vias suprimidas não fariam falta para a cidade, ressaltando que um parque linear ainda proporcionaria e incentivaria a utilização de transportes alternativos, como a bicicleta.


O Plano Diretor do Parque Municipal elaborado pela equipe 
do arquiteto José Antônio Hoyuela Jayo, que recebeu menção 
honrosa na II Bienal de Arquitetura da Paisagem no México.


       E abrindo um parêntese, mas ainda imerso nas águas, gostaria de convida-los para uma reflexão sobre a Pampulha e as suas “famigeradas” Capivaras. A lagoa vem recebendo há décadas detritos, esgotos e outras porcarias mais sob o olhar de um Poder Público acéfalo e negligente e por uma população que nunca se preocupou com o dia de amanhã. As Capivaras, antes espalhadas pelas águas urbanas da bacia, encontraram o seu refugio ali, sistematicamente expulsas das terras invadidas e urbanizadas do vetor norte da RMBH. 

       Vocês já imaginaram as perdas ecossistêmicas sofridas a partir da ocupação urbana desenfreada e voraz? Pois bem, sobrou para os singelos mamíferos aquela porção de “vida natural”, poluída, assoreada e esquecida por todos, aonde desde sempre proliferam vetores de extrema periculosidade para os citadinos. A municipalidade? Preocupada apenas com a porção do Complexo Arquitetônico, ou seja, com o concreto.

       Conclusão: vocês acham mesmo que a culpa é das Capivaras pela proliferação dos pequenos parasitas, ou do Poder Público que nunca se preocupou com os problemas decorrentes da rápida urbanização e com o abandono de áreas assoreadas por décadas? Que só veio a se preocupar com a Lagoa a partir do iminente assoreamento generalizado que já figurava no horizonte, fora o título de nobreza concedido para uma cidade que desde o seu nascimento procurava uma identidade? Em relação ao sacrifício sugerido por um “eminente”, de um local que "in loco" conferi o tratamento dado aos animais e aos seus donos, sugiro o extermínio de quem realmente criou o problema e não dos animais que são vítimas de todo esse sistema que só se preocupa com o dia de hoje. E em alguns casos vítimas de quem deveria zelar por eles. Alternativas certamente existem, mas...



A culpa é delas ou nossa?
Foto do Autor

       A população precisa ter acesso às soluções alternativas para as águas urbanas e não sofrer com a imposição “goela abaixo” de técnicas que só contribuem para a potencialização dos problemas causados pelas águas que tomam o que é seu por direito. Esse é o meu desejo, manifestado inclusive em forma de livro, onde apresento toda o processo de desenvolvimento urbano de Belo Horizonte sob a ótica das canalizações.


Parque Linear do córrego do Vidoca em São José dos Campos.
O exemplo correto está mais próximo do que se imagina.
Foto do Autor

Parque linear e corredores verdes do Rio Manzanares, Espanha.

O exemplo português desde Agualva-Cacem.



¹ Recomendo a todos a conhecer o excelente projeto do Plano Diretor do Parque Municipal, de autoria da equipe chefiada pelo arquiteto José Antônio Hoyuela Jayo. 



     Tenho a honra de anunciar que está a venda a partir de agora mais dois livros que mostram a história de BH e as suas peculiaridades e fragmentos, os livros “Belo Horizonte em pedaços: fragmentos de uma cidade em eterna construção”, com 214 páginas e o “Turbulenta modernidade: o Art déco em Belo Horizonte 1930-1950”, com 114 páginas. Segue uma breve exposição dos livros e suas características. Ressalto que os links para compra estão no final das exposições, na imagem à direita na página do blog e no Menu "Livros a Venda".

Belo Horizonte em pedaços: fragmentos de uma cidade em eterna construção

 

     Antes de qualquer coisa, deve-se compreender que Belo Horizonte, assim como os demais núcleos urbanos, se encontra em constante transformação. Fruto, além de outros fatores, das mudanças de nossa sociedade, que contribuem para a constante remodelação do espaço urbano. Em Belo Horizonte as transformações mais notáveis do espaço se deram em distintos períodos ligados entre si, deixando fragmentos não só na paisagem, mas também na memoria dos citadinos, em forma de agradáveis e dolorosas lembranças de uma paisagem que não existe mais.
     No caso o acervo iconográfico, sob a guarda de diversas instituições e acervos particulares, são reminiscências de um período de importantes transformações no âmbito urbano, politico e social, dentro do qual as fotografias exercem um papel muito mais complexo do que apenas o papel associado à contemplação, tornando-se um importante objeto de análise histórica e atestador de toda a mudança paisagística ocorrida na capital, além de guardiã (ou um fragmento) das transformações ocorridas ao longo das décadas a partir da constante remodelação do espaço.
     Daí nasceu à ideia de fazer uma publicação que priorize não só todo o processo de desenvolvimento urbano de Belo Horizonte sob a lente dos artistas, muitos deles anônimos, mas também os detalhes e fragmentos, desaparecidos ou não, gerados a partir do rápido crescimento populacional e da expansão desordenada de toda a malha urbana da capital, que acabou por vitimar belezas arquitetônicas e a qualidade de vida em uma cidade em eterna construção.


O livro Belo Horizonte em pedaços foi confeccionado no formato quadrado preto e branco em papel Couché 150gr, contendo 214 páginas e mais de 250 imagens, dezenas delas inéditas e identificadas a partir das pesquisas do Curral del Rey. Acompanhado das imagens vem a história da capital mineira, uma cidade em eterna construção.

Link para a compra do livro: clique aqui


Turbulenta modernidade: o Art déco em Belo Horizonte 

1930-1950

 

     O estilo arquitetônico Art déco, o primeiro sopro de um modernismo em Belo Horizonte, se consolidou em um período de notável mudança social, política e econômica pós 1930. Um estilo que pode ser considerado como a primeira arquitetura moderna do Brasil e responsável pelo rompimento com os estilos utilizados na República Velha.
     O Art déco é um estilo ainda desconhecido e desprezado por uma parcela da população apesar de presente em nossas vidas mais do que se imagina. E é isso que será apresentado ao leitor no livro, colorido e ricamente ilustrado com inúmeras imagens inéditas, acompanhadas de toda a história da capital mineira no advento e na descontinuidade do estilo déco.


     O livro Turbulenta modernidade: o Art déco em Belo Horizonte foi confeccionado no formato A4 com 114 páginas em papel Couché 150gr, contendo fotos, grande parte inéditas, além de um capítulo denominado “O Art déco na atualidade”, contendo dezenas de imagens dos remanescentes do estilo na capital mineira.
    O livro será oferecido em capa brochura, permitindo um melhor custo/benefício, e em capa dura, em acabamento mais fino. O miolo da publicação é idêntico, alterando apenas a capa.

Link para compra (capa brochura):  clique aqui

Link para compra (capa dura):  clique aqui


     Disponibilizei junto com o produto uma prévia visualização das primeiras páginas e do sumario dos livros. Aproveito para agradecer a todos os leitores e apoiadores dos trabalhos publicados no Curral del Rey e em outros meios, assim como todos que ajudaram na divulgação, sem dúvida a força motriz e a inspiração para escrever os dois livros, espero de coração que gostem do resultado! Agradeço ainda aos colecionadores, familiares e aos arquivos que sempre me auxiliaram nas pesquisas ininterruptas sobre a bela e sofrida Belo Horizonte e as suas singularidades.

Em caso de dúvida me coloco à inteira disposição. No mais obrigado e boa leitura!




      Esse mês o Curral del Rey recebeu uma boa notícia. O blog Hidden Waters, de autoria do historiador Sergey Kadinsky, autor do livro "Hidden Waters of New York City: A History and Guide to 101 Forgotten Lakes, Ponds, Creeks, and Streams in the Five Boroughs", que traz os rios escondidos de Nova York publicou uma breve história do ribeirão Arrudas e da própria capital mineira, citando como principal fonte todo o trabalho apresentado no livro sobre os rios urbanos de Belo Horizonte. Isso demonstra a importância que o ribeirão (e as nossas águas urbanas das bacias do Arrudas e da Onça) tem para Belo Horizonte e demais cidades em todos os sentidos, apesar de esquecido por uma ingrata urbe e largamente utilizado (ainda) como instrumento para se fazer política, estranhas e inúteis articulações que supostamente promoveriam a reabilitação das águas urbanas, além de catalisador de obras mais inúteis ainda. Egocentrismos à parte, a cidade tem obrigação em reconhecer a sua importância e promover o seu (re)conhecimento e a sua reabilitação, apesar de se saber que isso ainda demorará um bom tempo, pois má vontade e mal uso do ribeirão (e de todas as águas) para interesses individuais/políticos/econômico$ é ainda uma nefasta verdade por estes currais. Mas o trabalho continua e desde sempre precisamos conhecer a importante caixa d'água que temos sob os pés.


Imagem retirada do blog do notável historiador, 
referindo-se ao trabalho "Rios Invisíveis"

      Convido a todos a conhecerem o livro e o belo trabalho do notável historiador no link abaixo, aproveitando para agradecer ao ilustre pesquisador pela lembrança das águas urbanas de nossa bela e sofrida capital.

Acervo MHAB


Na iminência da elevação da Pampulha a categoria de patrimônio cultural da humanidade, é de suma importância traçar um breve histórico da região e de toda a sua importância para Belo Horizonte, região, aliás, nunca abordada diretamente pelo Curral del Rey, apenas por “pinceladas” dadas no momento da construção do Complexo Arquitetônico e da sua contribuição para a bacia do ribeirão da Onça, que nada mais é que a bacia do ribeirão Pampulha.
A região da Pampulha está estritamente ligada com o surgimento de Venda Nova no inicio do século XVIII. Por mais de duzentos anos, a região abrigou inúmeras fazendas que passariam a fornecer víveres para a infante capital, construída na ultima década do século XIX.
O acesso a importante região agrícola era realizado a partir dos caminhos que se originavam ao longo da estrada municipal para Venda Nova, integrada ao tecido urbano da região, que se encontrava em expansão na década de 1940. É importante observar que ainda existem as ruínas da centenária ponte sobre o ribeirão Pampulha nas proximidades do Aeroporto, abandonada após a construção de uma nova estrada quando das obras de represamento do ribeirão e da construção do Campo de Aviação, descobertas pelo autor a partir de visitas de campo à bacia do ribeirão Pampulha.
            A partir de 1930, com a consolidação da capital mineira e das politicas urbanas da Era Vargas (recomendo a leitura do Artigo “A Metrópole no horizonte: o desenvolvimento urbano de Belo Horizontena Era Vargas: 1930/1945” publicado na Revista do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte no ano de 2015) a agrícola região passou a ser vista como uma importante reserva de terras para uma futura expansão urbana, o que aconteceria ainda nesta década, a partir da construção da represa da Pampulha.

As ruínas da antiga ponte da estrada para Venda Nova, descoberta
e fotografada pelo Autor no ano de 2015.
Foto do Autor

Parte da bacia do ribeirão Pampulha correspondente a região da 
represa, em Planta do ano de 1936. Detalhe para um dos inúmeros
loteamentos lançados no período.
Acervo do Autor

O Complexo da Pampulha

            A Represa da Pampulha foi construída na bacia do ribeirão Pampulha, formado pelos córregos Ressaca e Sarandi, entre outros pequenos afluentes. A represa, construída na gestão de Octacílio Negrão de Lima em 1938 tinha como objetivo o abastecimento de água da capital e proporcionar um espaço para a prática de esportes aquáticos, dentro do desenvolvimento do lazer promovido na era Vargas para a população dos centros urbanos. Belo Horizonte, desde a sua inauguração contava com um precário abastecimento de água e a represa figurava como uma alternativa para o equilíbrio do déficit existente entre o crescimento populacional e o abastecimento. Após a sua construção houve um descaso nas décadas seguintes em relação à preservação das nascentes da bacia do ribeirão, além da ocupação desordenada das cabeceiras do curso d’água e da retirada da cobertura vegetal das cabeceiras e dos morros adjacentes à represa. Tudo isso levou a calamitosa situação atual, onde a estação de tratamento de água foi obrigada a encerrar suas atividades, visto a impossibilidade do tratamento da água captada da represa.

Obras de construção da barragem da Pampulha no final da década de 1930.
Acervo APCBH

A Pampulha seria um dos alicerces das políticas de modernização de Belo Horizonte implantada pela gestão JK, na qual a região se tornaria o marco da projeção da capital de Minas como uma cidade moderna, alinhada com a nova ordem politica do país, pensada para ser o símbolo da sociedade moderna da capital. Era a recuperação, parcial, do ideal modernista onde os políticos mineiros da nascente República se apoiaram para levar adiante a ideia de uma nova capital para Minas Gerais, onde o modernismo romperia com o passado colonial, enraizado na cultura do estado.
Em 1941 a represa foi transformada em área de lazer para a população belorizontina e amplamente utilizada pela administração JK e pelas administrações futuras para promover a capital como uma capital moderna e como atrativo turístico de uma cidade de meia idade. A estratégia de consolidação da região se completaria com a construção do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, cujo projeto coube a artistas e arquitetos conhecidos pelos trabalhos de vanguarda realizados na década anterior. O projeto do conjunto arquitetônico ficou a cargo do arquiteto Oscar Niemeyer, as pinturas seriam executadas por Cândido Portinari, o conjunto paisagístico seria executado por Burle Marx e as esculturas por Alfredo Ceschiatti, entre outros profissionais. Era a concretização do plano politico de JK, cujos alicerces eram a industrialização, o incremento do comercio e do consumismo e a consolidação urbana.

A barragem no ano de 1941.
Acervo APCBH

 Construção da Casa do Baile no ano de 1941.
Acervo APCBH

Construção do Iate Clube, 1941.
Acervo APCBH 

Um dos croquis da Igreja de São Francisco de Assis.
Acervo APCBH


A justificativa dada pelo prefeito em seu relatório de 1941 para a construção do Complexo era clara, pois, segundo JK não se poderia frear o desenvolvimento urbano de Belo Horizonte, sendo necessária a continuidade do crescimento urbano para as regiões mais afastadas, projetando assim a capital como um dos grandes centros urbanos brasileiros, na vanguarda do modernismo e do desenvolvimento da urbe:

"A Pampulha era uma imposição do progresso da capital, traduzido no crescimento constante da área edificada e na projeção vertical das construções, quando os arranha-céus vieram substituir casas velhas e sem conforto”. Compreendemos ser a ocasião propicia para dar a cidade uma serie de atrações que em outros centros de população densa constituem fator preponderante para o desenvolvimento do intercambio turístico, uma das mais rendosas indústrias que podem contar as cidades".

         A partir da construção do Conjunto Arquitetônico a represa da Pampulha passaria a fornecer água somente para os bairros nobres que surgiram na região. A represa, construída para regularizar o abastecimento de água de grande parte do município seria utilizada apenas para abastecer uma classe privilegiada, mesmo assim por alguns anos. A construção do Complexo incentivaria o crescimento urbano para a região norte de Belo Horizonte, ao mesmo tempo em que se empreendeu a construção do Aeroporto da Pampulha e da Cidade Universitária, criada em 1941. A região passou a ser atendida pela Avenida Antônio Carlos, uma das principais avenidas radiais construídas no período. As áreas destinadas às residências nos bairros criados no entorno da represa seriam ocupadas pela população de maior poder aquisitivo por imposição da Prefeitura e pela especulação imobiliária que atuaria de forma similar ao que já ocorria na zona planejada da capital, inflacionando o metro quadrado da região.
A importância dada a Pampulha foi tamanha que no relatório apresentado ao Conselho Deliberativo em 1942 pelo Prefeito 32 páginas foram dedicadas para explicar e exaltar o conjunto arquitetônico e paisagístico da Pampulha. Juscelino Kubitscheck utilizaria as obras do Conjunto Arquitetônico da Pampulha como um trampolim para se projetar nacionalmente, como a imagem de um político adepto aos ideais modernistas, em contraposição aos velhos políticos da República Velha, sucumbidos após a revolução de 1930. A gestão JK, apesar de conotações populistas e modernizadoras, que promoveu uma profunda transformação da paisagem urbana belorizontina, assim como as gestões desde a década de 1920, deu continuidade a política de favorecimento às elites da capital, onde a Pampulha se tornaria o principal marco desse favorecimento enrustido pelo populismo. Tal gestão de vanguarda, com claras intenções futuras, acabou por projetá-lo no cenário nacional como o político ideal para colocar o Brasil no caminho da modernidade após o fim do Estado Novo, ressaltando que as políticas urbanas, aplicadas em sua gestão, ainda ecoam pela capital mineira, materializada no Conjunto Arquitetônico da Pampulha e nas Avenidas Radiais.

Casa do Baile.
APCBH acervo José Góes

Iate Clube e à esquerda o Cassino, ambos concluídos.
Acervo APCBH

Não será exposto aqui a segunda metade do século XX, tão recente na memória dos citadinos, metropolização etc. um período já trabalho aqui no Curral del Rey e no livro Rios invisíveis da metrópole mineira, mas em todo esse contexto Belo Horizonte, que sempre buscou uma identidade moderna, idealizada e materializada por JK no Complexo Arquitetônico da Pampulha a encontrou no singular Complexo. Perdida em meio ao ecletismo em demolição e ao deconiano tão desprezado, o primeiro lampejo de “modernidade”, a cidade finalmente se encontrou na aristocrática Pampulha e certamente de lá sairá toda a importante valorização de nosso conjunto arquitetônico produzido sob diversos épocas e momentos de uma cidade em eterna construção. Eu, que pesquiso ininterruptamente há quase uma década sobre a capital mineira, torço para que o reconhecimento não pare por ai, principalmente a nível local e que o belo espelho d’água que molda todas as belezas arquitetônicas seja plenamente e verdadeiramente recuperado e não apenas em propagandas que ofendem a inteligência dos belorizontinxs, mesmo após a conquista de um título tão importante para a bela e moderna urbe mineira, pois a recuperação não se dá em meses ou no prazo de uma administração (04 anos) e sim a partir de um planejamento a longo prazo e outras coisas mais, importantes detalhes que nunca aconteceram por essas bandas.

Uma Pampulha bela, potável, navegável e sociável, 
esse é o nosso desejo.
Acervo MHAB






O Museu Mineiro promove no dia 21 de maio (sábado), às 15 horas, o lançamento do livro “Rios Invisíveis da Metrópole Mineira” e Bate Papo Ilustrado com o autor Alessandro Borsagli.

O livro é resultado de cinco anos de pesquisa sobre os rios urbanos de Belo Horizonte é lançado com a intenção de promover o (re)conhecimento do que se perdeu ao longo dos anos com o processo de desenvolvimento urbano da cidade. Ao se conhecer como um dia foi o saudável o convívio dos elementos naturais com a vida urbana, é fácil perceber como a negação e a vedação de nossos rios acarretou na piora na qualidade de vida e o afastamento dos elementos naturais do nosso cotidiano.

Além da história da cidade a partir da destruição de seus elementos naturais e das mudanças da paisagem urbana da capital, o livro também traz mapas e mais de uma centena de imagens que atestam uma paisagem perdida com o desenfreado crescimento urbano de Belo Horizonte e manuscritos e fotografias inéditas que convidam o leitor a conhecer também o Lado B da história da cidade.

O evento que tem entrada gratuita e integra à programação do Museu Mineiro durante a 14ª edição da Semana de Museus, que será realizada entre os dias 16 e 21 de maio de 2016 e que tem como tema “Museus e Paisagens Culturas”. Estão todos convidados!

Informações do livro: http://curraldelrei.blogspot.com.br/2016/02/livro-rios-invisiveis-da-metropole.html


Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis