MHAB acervo CCNC


      Tenho visto nos últimos tempos nas redes sociais uma grande quantidade de imagens antigas com erros (em alguns casos) de localização e principalmente de datação, o que contribui para a perpetuação de erros históricos que acabam se tornando verdade, fato normal se tratando de rede social e do período em que estamos atravessando, onde uma mentira repetida mil vezes se torna verdade. Naturalmente muitas delas realmente não possuem informações precisas de data e local, no entanto, inúmeros erros vem sendo cometidos em imagens de acervos que se encontram datados e localizados de maneira correta.
      A imagem acima, do ano de 1895, uma das primeiras registradas pela CCNC após o período de estudos para a construção da nova capital, apresenta uma Avenida Afonso Pena em inicio de abertura, ou seja, a importante via, o boulevard de Aarão Reis, que fez questão de batiza-la com o nome de seu amigo político, se encontrava no no de 1895 em projeto, ressaltando que nos primeiros anos a avenida foi aberta entre o mercado (atual Estação Rodoviária) e a Avenida Brasil, sendo o restante concluído entre os anos de 1905 e 1929, com a terraplenagem da Praça do Cruzeiro.

Detalhe da Avenida Afonso Pena nos anos de 1898/1899.
Acervo MHAB

A avenida nos primeiros anos da nova capital, em imagem
de Francisco Soucasseaux.

      Nesse contexto, é importante a construção de um olhar critico em relação as imagens e informações disseminadas para que erros históricos não se perpetuem, evitando assim a banalização de imagens e paisagens produzidas sob o olhar artístico de fotógrafos e entusiastas da 8ª Arte, ressaltando que a imagem exerce um papel muito mais complexo do que apenas a contemplação, guardando os valores e ideais do seu tempo e das transformações paisagísticas, políticas, econômicas e sociais. 

Um dos recantos instalados na Praça 15 de junho, no bairro
Santo André. Acervo APCBH/ASCOM

      Ao ler uma notícia na página BH pela Infância, a respeito da obrigatoriedade da instalação de brinquedos para as crianças nas praças de Belo Horizonte, e da tentativa da municipalidade em barrar juridicamente a instalação dos equipamentos, lembrei de uma passagem publicada no livro BH em Pedaços no ano de 2016, quando a administração de Celso Mello de Azevedo (1955/1959) instalou em diversos locais da capital equipamentos destinados ao lazer das crianças, que não se restringia às praças, chegando a ocupar inclusive os largos canteiros centrais das avenidas, cena inimaginável na atualidade, em um momento em que a cidade ainda era pensada para as pessoas, uma realidade que rapidamente se alterou nos anos seguintes.
      Abaixo alguns dos exemplos de uma paisagem desaparecida em meio a metropolização de uma cidade que trocou o convívio, o verde e a cordialidade e polidez pelo individualismo veicular e pelo cotidiano cinzento e arrogante de parte de uma sociedade que desconhece o seu passado e o seu futuro.

  
Avenida Carandaí.
Acervo APCBH/ASCOM

Avenida Brasil.
Acervo APCBH/ASCOM

Avenida Bias Fortes.
Acervo APCBH/ASCOM


Referência: BORSAGLI, Alessandro. Belo Horizonte em pedaços: fragmentos de uma cidade em eterna construção. Belo Horizonte, Clube de Autores, 2016, (214 p.) *p.146.


Fonte: Jornal de Minas, fevereiro de 1974.


     Nesse período histórico e ao mesmo tempo preocupante em que estamos atravessando, a pesquisa, apesar dos percalços que vem sofrendo em meio à ignorância generalizada de parte da população que se "politiza" e busca esclarecimentos em postagens de conteúdo duvidoso e carregados de interesses macabros, é de suma importância para que se possa entender períodos da história não vividos e em alguns casos distorcidos.

A imagem acima remete ao ano de 1974, parte de uma matéria publicada pelo Jornal de Minas, a respeito de um atropelamento de um garoto faminto, que buscava o seu alimento no Vazadouro Morro das Pedras, ou "Boca do Lixo", publicada por um dos poucos jornais que em diversas oportunidades furou a blindagem da censura importa pelo período ditatorial 1964-1985 (ou 1989 caso queiram). No ano de 1975 o vazadouro começava a ser abandonado, com a construção do aterro sanitário do Califórnia na BR-040.



   Está a venda o livro Horizontes Fluviais, que tem como intuito apresentar para Belo Horizonte, através de imagens antigas e atuais toda a beleza dos rios urbanos, visíveis e ao mesmo tempo invisíveis para uma urbe que se encontra assentada sobre uma imensa caixa d’água. São 146 páginas a cores que trazem imagens e histórias inéditas sobre os cursos d’água, além de um capítulo que buscou retratar, a partir do olhar geográfico toda a beleza do elemento líquido horizontino a partir de inúmeras perspectivas e situações, desde o natural quase virgem até a máxima urbanização e degradação.


Praça com aspecto de largo: a Praça da Liberdade nos 
primeiros dias da nova capital.
Fonte: Sedução do Horizonte (1997).


      Uma breve história dos primeiros anos da praça, construída no "Alto da Boa Vista" do arraial do Curral del Rey.
   No dia 12 de dezembro de 1897, a inacabada Praça da Liberdade serviu de palco para as comemorações da histórica data de inauguração da nova capital, inaugurada em obras.
     Nos três anos seguintes, a praça figurou na paisagem na urbe administrativa como um largo que separava os edifícios institucionais e poucas residências pertencentes aos altos funcionários da administração estadual, corroborando a função hierárquica para a qual a cidade fora projetada. Ainda assim, a Praça era um roteiro obrigatório para os ilustres visitantes que para cá se dirigiam, projetando assim a praça e os seus edifícios como o cartão postal da capital, ornamentação máxima dos planos políticos da nascente república.
     No ano de 1901, a praça, então desprovida de ornamentos e com uma pequena arborização foi calçada por paralelepípedos oriundos de Conselheiro Lafaiete[1], ressaltando que apenas a alameda central da praça se encontrava calçada no período, visto a conexão direta com o Palácio. A Praça da Liberdade e a Avenida Liberdade figuravam nesse período como um eixo de conexão entre os edifícios institucionais da Avenida Afonso Pena e o local máximo da representatividade do poder do Estado, conectados por uma ampla avenida, que servia ainda de ligação entre a praça e a Praça da República, de onde se seguia para varias partes da zona urbana planejada. A extensão verde entre as praças era notória, conectando ainda o Parque Municipal, ponto de irradiação das massas vergéis de Belo Horizonte. 

"O aformoseamento da cidade tem sido, constantemente, do numero das minhas preocupações; desde o começo o demostrei, contratando por 15:000$000 com o hábil paisagista Sr. Antônio Nunes de Almeida o ajardinamento das praças da Liberdade e da Estação, serviço que será oportunamente aceito pela prefeitura, de acordo com as disposições do contrato. Para ajardinar a Praça da República fiz desenhar uma planta, de cuja execução será encarregado o Sr. Antônio Rocha" (Relatório Francisco Bressane, 1093, p.14).

      Nos anos seguintes o ajardinamento e demais benfeitorias da Praça da Liberdade se encontravam concluídas, marco do inicio da execução dos planos ornamentais do poder público, que tornaram a capital mineira referência no país no que diz respeito à harmonia entre o urbano e o verde.

Praça da Liberdade no ano de 1910.
Fonte: Acervo do Autor.

Praça da Liberdade no ano de 1912.
Fonte: Acervo do Autor.




[1] Relatório prefeito Bernardo Pinto Monteiro, 1902 p.34.


Inauguração da Rodovia Fernão Dias (BR-381), 1959.
Acervo do Autor


"O asfalto, presente nas políticas municipais desde a década de 1920, tomou uma conotação modernizante na gestão municipal de JK, passando a ser empregado em larga escala pelas administrações seguintes. Na gestão de Mello de Azevedo ele passou a ser vendido não somente como um agente modernista, mas também como um elemento embelezador da paisagem urbana encontrando no automóvel, símbolo do progresso, de status e de distinção social o seu par, tudo muito bem assimilado pelas sociedades urbanas brasileiras. A força de tal argumento se encontra presente até a atualidade em nossa sociedade, na qual o veículo individual movido a combustível ainda é visto como um objeto que propicia conforto, liberdade e abundância, ainda que sua função seja apenas para locomoção e erroneamente atribuída a ele um valor além da sua finalidade de uso." (Borsagli, 2017, p.196).

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis