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1963: Obras no canal do córrego do Acaba Mundo pouco antes da sua cobertura, Rua Professor Morais.
Fonte: APCBH/ASCOM

Já se encontra disponível para leitura o artigo “Do protagonismo à invisibilidade: Geografia Histórica do córrego do Acaba Mundo e a sua relação com o sítio de Belo Horizonte/MG (1716/1973)”, publicado no periódico “Caderno de Geografia”, editado pela PUC-Minas.

O artigo tem como objetivo analisar a relação do córrego do Acaba Mundo com o sítio ocupado pela cidade de Belo Horizonte. Correndo atualmente sob diversas vias da região centro-sul da capital mineira, o curso d’água possui grande importância não só para os estudos sobre a ocupação do sítio do arraial do Curral del Rey, mas também para a reconstrução das paisagens profundamente modificadas a partir do processo de evolução urbana de Belo Horizonte, onde a geografia histórica se encontra intrinsecamente ligada à paisagem. 

A abordagem da pesquisa foi trabalhada através da Geografia Histórica, possibilitando dessa forma a realização de uma contextualização geohistórica da ocupação do sítio que veio a receber a nova capital de Minas Gerais. Nesse contexto, observa-se que o curso d’água foi de grande importância para o abastecimento e para a forma do arraial, perdendo gradativamente importância ao longo do processo de evolução urbana de Belo Horizonte.

Link para leitura: Clique Aqui


      Perspectiva à montante do córrego do Acaba Mundo na Rua Bernardo Guimarães, entre os anos     de 1924/1925. Ao fundo a Avenida Afonso Pena em meia pista. Acervo MHAB


A imagem acima registra a interessante perspectiva à montante do córrego do Acaba Mundo no bairro Funcionários, nos anos de 1924/1925. Já a imagem abaixo registra o curso d’água a jusante, ambas feitas na Rua Bernardo Guimaraes entre a Avenida Afonso Pena e Rua Paraíba. O Acaba Mundo, como se lê na citação abaixo, retirada do relatório do prefeito Bernardo Monteiro, era motivo de preocupação do poder público desde a inauguração da capital, ocorrida no ano de 1897, uma vez que o seu leito natural atravessava uma importante e valiosa porção da zona urbana planejada.

“Resta por concluir-se o canal destinado à mudança do leito do Acaba Mundo, que parte da Rua Grão Mogol suburbana e vai ao Parque. Essa obra, aliás necessária, foi iniciada pela antiga Comissão Construtora e está parada desde 1897, e dela não poderá cogitar tão cedo” (BELO HORIZONTE, 1900, p.31).

As obras de retificação e canalização do curso d’água, paralisadas entre os anos de 1897 e 1924 só foram retomadas no ano de 1925, pouco antes dos registros fotográficos, raros por sinal, do curso d’água em leito natural. Na imagem à jusante é possível observar um imóvel eclético ainda existente no cruzamento da Rua Pernambuco e Avenida Brasil.

Perspectiva à jusante do mesmo trecho, anos de 1924/1925. Ao fundo um imóvel eclético ainda
existente no cruzamento da Avenida Brasil e Rua Pernambuco.
Acervo MHAB

É importante compreender que ambas as fotografias, atualmente com um alto valor histórico e essencial para o pesquisador que vos escreve, certamente foram feitas com a finalidade de mostrar o “problema” gerado por um curso d’água que ainda se encontrava em leito natural, onde é claramente visível que tanto a Rua Bernardo Guimarães quanto a Avenida Afonso Pena se encontravam interrompidas pelo meandro que impossibilitava a ligação direta entre as duas vias.

Como se vê na primeira imagem, nesse trecho existia apenas uma ponte de madeira sobre o córrego, diferentemente de outros locais onde a prefeitura, perante o adensamento do então principal bairro da zona urbana planejada, construiu algumas pontes de alvenaria de pedra, destacando-se as pontes da Rua Santa Rita Durão (ainda existente, porém soterrada) e a ponte da rua Pernambuco, ambas sobre o leito natural do Acaba Mundo.

Na imagem abaixo, identificada pelo autor no ano de 2016 e feita devido ao abatimento do canal construído às pressas (para a administração municipal, era de grande importância a comercialização dos lotes atravessados pelo curso d'água) é possível ver a ponte da Rua Pernambuco sobre o córrego do Acaba Mundo e a canalização tosca empreendida em 1926/1927. Na imagem é possível ainda visualizar a placa com a data da construção da ponte (1909) e as iniciais do prefeito Benjamim Brandão e do diretor de obras José Nogueira de Sá. Certamente muitas das belas pontes do bairro Funcionários ainda existem, enterradas sob o concreto e o asfalto das vias.

Perspectiva à jusante da ponte sobre o córrego do Acaba Mundo na Rua Pernambuco.
Acervo MHAB

Na porção do bairro atravessado pelo córrego do Acaba Mundo ainda deve existir cerca de quatro a cinco pontes similares, onde se pode destacar ainda a ponte do cruzamento da Avenida Getúlio Vargas e Rio Grande do Norte e a ponte da Rua Cláudio Manoel, todas sobre o referido curso d’água. Nesse contexto, é importante observar que as pontes foram construídas em caráter emergencial, uma vez que já estava prevista o desvio das águas do Acaba Mundo para a Rua Professor Morais e Avenida Afonso Pena, obra executada entre os anos de 1925 e 1929. O leito natural foi convertido em dreno pluvial, passando a ser responsável pela coleta das águas de uma porção da vertente oeste do Acaba Mundo (bairro Funcionários).

Perspectivas à montante das obras de construção do dreno no leito natural do córrego do Acaba 
Mundo sob a ponte da Rua Pernambuco, 1927/1928. Na imagem à direta é possível visualizar 
o dreno construído no antigo leito do córrego do Mendonça, no exato local de confluência 
com o Acaba Mundo.
Acervo APM

 Com as obras de retificação e canalização concluídas no ano de 1929, o córrego do Acaba Mundo pode ser considerado o primeiro curso d’água completamente canalizado dentro do perímetro da Avenida do Contorno, ou zona urbana planejada.

Canal do córrego do Acaba Mundo na Avenida Afonso Pena, 1929. Na imagem é possível visualizar
a casa da primeira imagem (A) localizada na Rua Bernardo Guimarães e o antigo leito (aterrado)
do Acaba Mundo (B) e um imóvel ainda existe (C) na Rua Rio Grande do Norte.
Acervo APM

Fontes: BORSAGLI, Alessandro. Rios invisíveis da metrópole mineira, Clube de Autores, 2016.

BORSAGLI, Alessandro. Rios urbanos de Belo Horizonte. Clube de Autores, 2020.


 
Sede da Fazenda Capitão Eduardo no ano de 2016.
Foto do Autor

*Publicado no livro “Arraial de Bello Horizonte: a ruralidade da nova capital de Minas”, disponível para leitura no link abaixo:

 Link Arraial de Bello Horizonte

 Será tratada de forma breve a história da Fazenda Capitão Eduardo, sede de uma notável propriedade que se estendia desde o povoado dos Borges, na margem oeste do rio das Velhas, até a foz do ribeirão da Onça no majestoso rio. A fazenda se encontra às margens do ribeirão, mais precisamente em sua margem sul.

A fazenda foi construída, ou adquirida no século XIX pelo Capitão Eduardo Aristides Augusto de Lima, nascido em 1828 em Santa Luzia e falecido no ano de 1889. Seu pai, o Tenente Coronel Serafim Timóteo de Lima, nascido em 1792, era fazendeiro e negociante na Vila de Santa Luzia, possuindo ainda terras na região de Abre Campo, assim como seu filho Justiniano Augusto de Lima.

A notícia mais antiga que se tem da propriedade do Capitão até o presente momento é a autorização dada pelo vice-presidente da Província de Minas, Francisco Leite da Costa Belém, que em 25 de setembro de 1871 autorizou o desmembramento da fazenda do Capitão Eduardo do município de Sabará, transferindo as terras para a freguesia de Santa Luzia, onde o Capitão ocupava o posto de comandante da 6ª Companhia aquartelada em Santa Luzia.

Lei de transferência da Fazenda Capitão Eduardo para o município de Santa Luzia.
Acervo APM

A fazenda teve suas terras atravessadas pela linha-tronco da Central do Brasil por volta de 1893, que seguia em direção ao vale do rio São Francisco. A linha, após a barra do ribeirão Arrudas, se desviava em direção à fazenda passando a poucos metros da sede, indo novamente ao encontro do rio das Velhas após galgar o ribeirão da Onça, sobre um pontilhão do qual atualmente se vê apenas os pilares de alvenaria de pedra argamassada.

A questão da ferrovia já foi abordada no capítulo 5 do Sob a Sombra, tornando-se desnecessária uma nova explanação acerca do assunto ressaltando que, visto que, devido a topografia do vale do rio das Velhas, mais atrativa e de menor distância, a linha foi desviada quatro décadas mais tarde para às margens do rio das Velhas, sendo suprimido o trecho correspondente à fazenda, que se tornou anos mais tarde uma das principais vias do bairro Ribeiro de Abreu.

Em data imprecisa, possivelmente no início do século XX a fazenda Capitão Eduardo foi vendida para Antônio Ribeiro de Abreu, filho do Coronel Mariano de Abreu, construtor da primeira sede da municipalidade, hoje Arquivo Público Mineiro.

Após a morte de Ribeiro de Abreu, a fazenda e suas terras passaram para sua esposa, que posteriormente as partilhou com os herdeiros as terras do futuro bairro Ribeiro de Abreu. A fazenda possuía, de acordo com o registro de partilha datado do ano de 1943, cerca de quatrocentos e setenta alqueires, culturas, pastos, e uma parcela de cerrado ainda preservada, sendo que uma porção considerável da fazenda se encontrava em terreno inundável, correspondente ao baixo Onça e suas planícies de inundação. O documento ainda se refere à Fazenda como casa de construção antiga, que pertencia agora a Ambrosina de Castro Abreu, viúva de Antônio Ribeiro de Abreu.

A partir desse momento as terras da fazenda seriam sucessivamente parceladas pelos herdeiros, desapropriadas para finalidades diversas (linha férrea, aterro sanitário e moradias populares) e invadidas a partir da década de 1970, deflagrada pela pressão urbana que empurrou a população de menor poder aquisitivo para fora do município.

A propriedade, ilhada pelo bairro Ribeiro de Abreu, se resumia no final do século XX a sede e benfeitorias próximas, mantidas pelo último proprietário da fazenda, o Sr. André Gustavo de Abreu Pereira Pinto, que empreendeu uma reforma no velho casarão na década de 1990, suprimindo parcialmente suas características originais na parte correspondente à fachada, de acordo com informações dos moradores locais. A propriedade foi vendida à Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA) para a construção da estação de tratamento de esgotos do ribeirão da Onça, que ali instalou o seu escritório quando das obras da ETE.

Nesse período, a propriedade e sua arquitetura rural, tão viva em Minas Gerais e resumida apenas à Fazenda do Leitão, começou a atrair a atenção do Autor, visto que até o ano de 2008 ainda era possível visualizar o casarão da Rodovia MG-020, cuja entrada era vedada pela Copasa.

Fazenda Capitão Eduardo fotografada pelo Autor no ano de 2007.
Foto do Autor

Finalmente, no mês de abril de 2016, após inúmeros pedidos de visita e pesquisas diversas, o Autor conseguiu entrar na propriedade, então abandonada. Não é necessário descrever a sensação e satisfação que teve o pesquisador ao se deparar com um imóvel genuinamente rural, de características que remetem aos períodos colonial e imperial, cuja importância e existência é desconhecida por muitos na capital.

Diante de tal constatação, iniciou-se uma pesquisa mais detalhada sobre a fazenda, em parceria com Marluce Nogueira Quaresma e descobriu-se que se trata de um dos imóveis mais antigos do município de Belo Horizonte, apesar da propriedade ter pertencido anteriormente a Sabará e Santa Luzia, em região anexada à capital poucos anos após a sua inauguração (1897).

O horizonte é raso e as pressões políticas-imobiliárias são verdadeiras. E assim a ruralidade desaparece por completo no município, a partir do desprezo histórico-cultural pelas reminiscências de um período que representa o atraso perante um progresso a base de concreto, de asfalto e embebido de esgoto. O breve histórico aqui apresentado é uma pequena contextualização de um dos imóveis mais antigos do município.

Perspectiva da varanda, voltada para o vale do ribeirão da Onça. Ao fundo o velho curral.
Foto do Autor

Perspectiva lateral.
Foto do Autor

Armário de um dos cômodos da fazenda, datado da segunda metade 
do século XIX, possivelmente uma reminiscência dos 
tempos do Capitão Eduardo.
Foto do Autor




 

Transbordamento do ribeirão Arrudas durante as obras de canalização e abertura da Avenida 
Tereza Cristina 1996/1997, na altura do bairro Nova Cintra.
Acervo Jeanine Oliveira

    Estamos entrando no tão aguardado período das chuvas, e em meio ao estranho 2020, onde inúmeros acontecimentos obrigatoriamente nos fazem refletir sobre os nossos valores e sobre a nossa passagem nesse belo e sofrido planeta, os (por ora) esquecidos e centenários transbordamentos em meio urbano serão por muito tempo uma realidade em Belo Horizonte, ressaltando que a extensa repercussão dos transbordamentos ocorridos em 2020 se deu por um simples motivo: por ter ocorrido na bacia do córrego do Leitão, onde se encontram assentados alguns bairros nobres da capital mineira.

  No entanto, hoje veio ao meu conhecimento essas interessantes imagens, enviadas pela ativista ambiental e ribeirinha urbana Jeanine Oliveira, de dois momentos distintos das obras de canalização do ribeirão Arrudas na altura do bairro Nova Cintra no ano de 1996. A primeira imagem mostra as obras de canalização do curso d’água e a segunda imagem mostra o mesmo local no período chuvoso de 1996/1997, onde se observa o transbordamento do curso d’água parcialmente desviado para o canal em construção, ocupando as suas várzeas que então se encontravam em processo de urbanização.

   As imagens, obtidas no exato momento em que o curso d’água sofria uma nova intervenção, torna ainda mais evidente a necessidade de se abandonar a técnica de canalização e retificação dos cursos d’água em meio urbano, realizadas até a atualidade sob pretextos higienistas, de extinção dos transbordamentos e melhoria do sistema viário. A extrapolação do canal e a ocupação das águas no local onde se encontra a Avenida Tereza Cristina demostra que as obras deveriam ter sido realizadas de modo a integrar e fortalecer a relação cidade/rio e não promover o rompimento entre a cidade e o rio. Obviamente, politicamente e monetariamente, as obras tiveram continuidade e a potencialização dos transbordamentos também, ressaltando que o processo de urbanização/impermeabilização do alto Arrudas se encontrava nesse momento em franca expansão.

   Antes de culpar a natureza, as chuvas ou ainda acreditar que não existem alternativas a uma técnica que busca controlar um elemento incontrolável, é importante compreender que atrás da indústria das enchentes existem relações políticas e econômicas que superam qualquer interesse coletivo, onde poucos lucram e todos perdem. As várzeas não foram feitas para serem habitadas e o ser humano não tem o poder e nem o direito de controlar a natureza e os seus fenômenos.

Ribeirão Arrudas durante as obras de canalização e abertura da Avenida 
Tereza Cristina 1996/1997, na altura do bairro Nova Cintra.
Acervo Jeanine Oliveira


Perspectiva do ribeirão Arrudas durante as obras de canalização 1996/1997.
Acervo Jeanine Oliveira

Transbordamento do ribeirão Arrudas durante as obras de canalização nos anos de 1996/1997, 
no mesmo trecho da imagem acima.
Acervo Jeanine Oliveira

O curso d'água ocupando as suas várzeas que se encontravam em processo de urbanização. Uma imagem que explícita a incompetência e conveniência de um poder público historicamente 
submisso e negligente.
Acervo Jeanine Oliveira







Parque Santo Antônio no ano de 1936, construído no local destinado ao Zoológico pela CCNC.
Acervo APCBH

   Belo Horizonte é uma cidade que nasceu sob os escombros do velho arraial do Curral del Rey, tido pela Comissão construtora da Nova Capital (CCNC) como não merecedor do sítio que habitou por quase dois séculos. O verde e o líquido elemento, que fazia parte da paisagem do arraial, foram considerados elementos imprescindíveis para a nova capital, que com sua racionalidade deveria controla-los dentro da cidade rígida e inflexível.

   Dentre os espaços públicos criados para concentrar o elemento vergel dentro da urbe estava o Jardim Zoológico, planejado pela CCNC no ano de 1895 para ocupar a porção de uma parte do interflúvio que separava as microbacias dos córregos do Mendonça e do Zoológico, coincidentemente (ou nem tanto, pois cabeceiras e fundos de vale sempre foram elementos importantes na divisão de propriedades, territórios etc.) parte dos limites das Fazendas do Capão e Leitão, desapropriadas no ano de 1894 para a construção da capital, que também divisavam com terrenos devolutos. Ressalta-se ainda que o córrego do Zoológico certamente era um curso d’água sem nome quando da chegada da CCNC ao arraial (1894), recebendo posteriormente o nome que carrega até a atualidade.

   O Zoológico projetado pela CCNC ocuparia seis quarteirões na zona urbana dentro da Avenida do Contorno, tendo como limites as ruas rio de Janeiro, Emboabas (Antônio Aleixo), Fernandes Tourinho e Bahia, em local que inicialmente ficou de fora da primeira ocupação urbana da nova capital, e consequentemente o Zoológico não foi construído.

   Preservada nas suas devidas proporções até a década de 1920, a área acabou por se tornar valiosa dentro dos planos erários de uma cidade que vivia do repasse do Estado, que por sua vez indicava os prefeitos da capital. A área original do Zoológico, que abrangia cerca de 110.000 metros quadrados, foi reduzida para cerca de 35.000 metros quadrados com a abertura de quatro quarteirões que não existiam na planta original.

   A área que permaneceu desocupada correspondia às cabeceiras do córrego do Zoológico, que passou por profundas modificações entre os anos de 1928 e 1930, uma vez que o pequeno curso d’água foi canalizado e coberto em toda sua extensão, e as cabeceiras arrasadas para receber um parque.

        Perspectiva da área reservada para o Jardim Zoológico (1895) e a área destinada ao Parque Santo Antônio (1928) nas respectivas plantas de Belo Horizonte. 
Detalhe para a presença dos metros iniciais do córrego do Zoológico na planta de 1895, inserido na planta do Jardim, à direita o curso d'água já desaparecido da paisagem urbana e da área do parque, 
em um local que se encontrava em profundas mudanças no ano de 1928.
Modificado de APCBH

Obras de canalização e terraplanagem das cabeceiras do córrego do Zoológico nos anos de 
1928/1929, no momento em que o bairro Santo Antônio/Lourdes se encontrava 
em urbanização. À direita a Rua Espírito Santo.
Acervo MHAB


Perspectiva de uma parte da vultosa movimentação de terra na área destinada 
ao Zoológico/Parque, 1928. ao fundo a Rua Antônio Aleixo.
Acervo APM

   Por parte do poder público, pouco se fez na primeira metade da década de 1930, período de turbulência política no país e no Estado de Minas Gerais. No entanto, a partir do ano de 1935 a cidade se tornou novamente um canteiro de obras capitaneado por Octacílio Negrão de Lima, prefeito indicado pelo interventor estadual Benedito Valadares. A área do ex zoológico e do parque em projeto, parcialmente terraplanada, era então vista como um lugar insalubre e problemática dentro de uma área nobre recém ocupada, e tornou-se prioridade de uma administração que, assim como as demais e as atuais, se preocupava prioritariamente com a porção da cidade dentro da Avenida do Contorno.

   Alinhada à política promovida por Getúlio Vargas, que incentivava o desenvolvimento do lazer para a população dos centros urbanos (a construção da Represa da Pampulha também atendeu a tais objetivos), a prefeitura deu início à construção do Parque Santo Antônio, batizado com o nome de um bairro que então englobava as terras do projetado Zoológico, atualmente “empurrado” para os limites da Contorno por motivos óbvios.

   Ao mesmo tempo em que a PBH dava sequência a construção do Parque, que atenderia aos moradores da cidade, ou de pelo menos uma parte dela, um grupo de belorizontinos buscava um local para fundar o seu clube, vislumbrando no Parque Santo Antônio e em sua piscina olímpica, obra que capitaneava as propagandas oficiais do período, o local ideal para a concretização dos seus planos, observando que entre outros pormenores, certamente a posição geográfica do local dentro de uma cidade altamente segregacionista e elitista foi um dos fatores preponderantes para a escolha.

  Com as obras do parque finalizadas a área acabou arrendada mediante concorrência pública (Relatório PBH 1935-1936 p.63) para o Minas Tênis Clube, que pouco tempo mais tarde construiu a sua sede em estilo Art Déco.

   Nesse contexto, duas coisas chamam a atenção do pesquisador: a primeira é o fato de uma espaço público ter sido rapidamente convertido em um espaço privado, cujos frequentadores figuravam como os mais abastados da capital, ou pelo menos alguns deles procuravam manter as aparências para frequentar espaços "vedados" à população de menor poder aquisitivo. 

Em segundo lugar, de acordo com o relatório de Negrão de Lima, o Parque foi arrendado mediante concorrência pública, no entanto, de acordo com a dissertação da historiadora Marilita Aparecida Arantes Rodrigues sobre a história do Minas Tênis Clube (1996, p.63-65) o Parque já havia sido previamente prometido à sociedade pelo prefeito, ressaltando que o arrendamento, ao que tudo indica, durou cerca de quatro anos, de acordo com relatos que se encontram na interessante pesquisa. Abaixo uma parte do texto que pode ser consultada neste LINK:

Para assegurar o êxito do empreendimento, resolvi colher pessoalmente as reservas de cotas, pois muitas pessoas achavam improvável manter um clube sem a renda que, na época, somente o futebol assegurava. Examinávamos alguns terrenos para a construção do nosso clube, quando o Prefeito Otacílio Negrão de Lima, preocupado em urbanizar a área de Santo Antônio, deu início à construção da piscina olímpica, que seria complemento de um parque público.

Ocorreu-nos, então, a possibilidade de instalar o nosso clube no parque Santo Antônio e para isto solicitamos uma audiência ao Prefeito, que teve a gentileza de receber uma comissão nossa, à noite, em sua residência. Faziam parte dessa comissão: Eu, Dr. Necésio Tavares e alguns dos seus liderados, Desembargador Walfrido Andrade, Dr. José Mendes Júnior, Dr. Esmeraldo Borges, Gamaliel Suaris e Adalberto Veloso de Carvalho.

O Dr. Otacílio nos ouviu atentamente, fez várias indagações sobre a finalidade educativa do nosso clube e terminou nos garantindo o arrendamento, assim que terminassem as obras da piscina e quadras esportivas.

Assim, no dia 15 de novembro de 1935, era fundado o Minas Tênis Clube, nos salões do Automóvel Clube, assumindo a presidência o Dr. Estevão Pinto, secretariado pelos Senhores Dr. Sady Laborne e Dr. Hélio Tavares, sendo considerados sócios fundadores do clube os 200 primeiros sócios que assinassem a ata de fundação.

No dia 7 de janeiro de 1937, foi ultimado o contrato de arrendamento e no dia 7 de junho do mesmo ano, lançada a pedra fundamental. A inauguração do Minas Tênis Clube se deu no dia 27 de novembro de 1937 e a solenidade de inauguração realizada nos dias 27 e 28, assistida por milhares de pessoas, jornalistas esportivos de todo o país e Presidentes de várias Federações, foi um acontecimento empolgante. No dia 24 de fevereiro de 1939, o então presidente do clube, Major Ernesto Dornelles, conseguiu a rescisão do contrato de arrendamento da Prefeitura. Finalmente, em 22 de dezembro de 1967, o então presidente do clube, Dr. José Mendes Júnior, obteve da Prefeitura a sua doação, por escritura Lavrada no cartório do Dr. Abílio Machado, na qual o Clube se obrigava a ceder, gratuitamente, suas instalações para promoções esportivas, culturais, artísticas e recreativas patrocinadas pelo Governo do Estado, ou do Município, quando solicitadas.

    Ainda a respeito desta questão, a historiadora Luciana Silva Schuffner, em sua dissertação defendida no ano de 2007 (p.57) realizou algumas observações sobre o processo de conversão de um espaço público para um espaço privado:

"O grupo que fundou o MTC era liderado pelo Dr. Necésio Tavares e pelo Dr. Waldomiro Salles Pereira. A Prefeitura de Belo Horizonte doou, para a construção do clube, a área onde seria construído um parque público, denominado Parque Santo Antônio, para a população da cidade. Nesse local, a prefeitura já havia começado as obras para a construção do parque esportivo. Assim, o MTC foi contemplado com as benfeitorias pagas com dinheiro público: Dessa forma, uma obra idealizada, inicialmente, como um espaço público de lazer, construída com dinheiro público, passou atender interesses particulares de um grupo interessado em construir ali um clube para os seus associados [...]. O processo de nascimento do MTC mostra-nos que o sonho desse clube foi desenhado em um grande quadro sócio-cultural, que possibilitou atender à vontade de um grupo da elite política e econômica de Belo Horizonte, que se reuniu em torno de um objetivo da criação de um espaço para a prática esportiva como lazer. (RODRIGUES, 1997, p. 485)."

Parte destinada aos jogos infantis, 1936.
Acervo APCBH

Perspectiva da piscina olímpica em construção, 1936.
Acervo APCBH

Página extraída do relatório de Octacílio Negrão de Lima, 1936, destacando o trecho referente
ao Parque Santo Antônio.
Acervo APCBH

    Nesse período o espaço arrendado pelo Minas Tênis Clube acabou ainda se tornando um ponto central nas visitas de Getúlio Vargas a Belo Horizonte durante o Estado Novo (1937-1945), onde se promoviam desfiles cívicos e demonstrações de esporte, principalmente da mocidade belorizontina, ressaltando que o governo fascista no qual o Brasil se encontrava (a ditadura de Vargas de fato foi fascista entre os anos de 1937-1939) enxergava a pratica de esportes como um importante elemento aperfeiçoador e disciplinador, imprescindível para a formação do caráter da sociedade moderna, e ao que tudo indica em Belo Horizonte o clube se tornou no período o representante oficial da política do Estado, onde predominavam os princípios da “eugenia e o aperfeiçoamento da raça” como se lê na propaganda abaixo, veiculada pelo Estado em agosto de 1939**.

    O clube acabou tendo uma participação importante para a plena ocupação do seu entorno, ao mesmo tempo em que acabou se tornando um importante marco da paisagem urbana da capital mineira, sendo “vendido” em matérias veiculadas na imprensa e em postais como um importante elemento de uma capital que desde sempre buscou a modernidade, ainda que, ao longo da história de Belo Horizonte, espaços inicialmente destinados à população em geral, como o Zoológico e o Parque Santo Antônio acabaram convertidos em espaços destinados a uma parcela dela. É sem dúvida um capítulo da história da capital que merece maior aprofundamento por parte dos pesquisador@s, ainda que Arantes Rodrigues, e principalmente Schuffner (cujos links se encontram no final do texto) já realizaram isso com grande relevância

Propaganda veiculada pelo Estado na Revista Alterosa em agosto de
1939. Detalhe para os trechos "cultura e de aperfeiçoamento da raça" 
e "grandiosa obra de eugenia e civilização", o que demonstra o 
alinhamento social, político e cultural entre o estado e o governo federal
Acervo APCBH

Visita de Getúlio Vargas a Belo Horizonte, 1939 

(inauguração do parque infantil)

Acervo Arquivo Nacional






Visita de Getúlio Vargas a Belo Horizonte, 13 de maio de 1940 

(inauguração da Avenida do Contorno)

Acervo Arquivo Nacional






* O Autor gostaria de ressaltar que possui respeito pela história do MTC, sabendo da sua importância para uma parte da população de Belo Horizonte ao longo dos oitenta e cinco anos de existência. O que foi exposto no presente artigo são fatos que se encontram em documentos da época (1895/1940), ressaltando ainda que as informações aqui apresentadas se encontram registradas nos relatórios dos prefeitos, revistas do período analisado, em trabalhos acadêmicos e em acervos iconográficos que se encontram sob a guarda do APCBH e do Arquivo Nacional.

** Recomendo a leitura da dissertação da historiadora Marilita Aparecida Arantes Rodrigues sobre a história do Minas Tênis Clube, que realiza uma interessante abordagem sobre o papel do Estado no período (p.77-82), que alinhado ao poder central agia em busca de um ideário político de eugenização do Brasil, no qual as dependências do clube foram frequentemente utilizadas. A dissertação pode ser consultada neste LINK

*** Recomento a leitura da dissertação da historiadora Luciana Silva Schuffner, intitulada "O Minas Tênis Clube e o Estado Novo: moldando corpo e mente da juventude de Belo Horizonte (1935-1945)", uma pesquisa de grande importância que pode ser consultada este LINK

**** Links para ler com atenção (clique nos links). Gostaria de observar que os links 2 e 3 saíram do ar após a publicação do texto. No entanto, os mesmos ficarão aqui disponíveis caso voltem ao ar:

Link 1

Link 2 

Link 3 








Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis