Ribeirão Arrudas (Avenida dos Andradas), 1986. Ao fundo a Igreja de Santa Tereza e em 
segundo plano o campo da Associação Esportiva Santa Tereza (AEST).
Acervo APCBH/ASCOM


     Atualmente, é mais fácil encontrar imagens de cinquenta, sessenta anos atrás do que imagens contemporâneas (pelo menos do período de minha geração). No entanto, em meio às pesquisas sempre me deparo com agradáveis surpresas que remetem à minha infância e adolescência, onde um ribeirão Arrudas recém canalizado nos bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia e as esplanadas surgidas das intervenções realizadas no curso d'água faziam parte do meu cotidiano.
     A imagem acima, feita durante a administração do prefeito Sérgio Ferrara (1986-1989), registra um Arrudas recém canalizado em um local anteriormente ocupado por grandes aglomerados, em parte arrasados após a grande enchente de 1983, que acabou por acelerar as obras de canalização que então se encontravam interrompidas.
      O curso d'água, que até então corria em leito natural em meio aos aglomerados, passou a correr em um canal esteticamente horrível e que com sua largura e profundidade atesta a incompetência do poder público em lidar com a questão da presença da rede hidrográfica em meio urbano e com a própria drenagem urbana.


Encontra-se disponível para leitura o livro “Olhares Geográficos sobre Minas Gerais”, organizado pelos Geógrafos Amanda Ribeiro, Gleyber Calaça, Juliana Caputo e Sabrina Goncalves, todos da PUC Minas. O livro traz inúmeros registros sobre as pesquisas de campo realizadas no estado de Minas Gerais, incluindo ainda imagens captadas em trabalhos de campo realizados em Belo Horizonte nos últimos anos.

Recomendo a leitura e apreciação das belíssimas perspectivas que se encontram registradas no livro, um importante registro de paisagens e percepções de uma sociedade plural, espaços multiculturais e belezas singulares. Abaixo o link do livro, para acessa-lo é só clicar no título:


    Distância entre os povoados representada nas Cartas Sertanistas, elaboradas na primeira metade 
do século XVIII. A partir das informações contidas no importante documento geográfico-histórico,        um dos primeiros registros do arraial que se transformou em metrópole dois séculos mais tarde,        optou-se pela adoção do topônimo ‘Curral del Rey’, de origem galego-portuguesa, no site criado 
para divulgar as pesquisas sobre o processo de desenvolvimento urbano de Belo Horizonte.
Acervo BN


Hoje, dia treze de abril, faz dez anos que realizei a primeira publicação no Curral del Rey. De lá para cá foram mais de cento de cinquenta textos postados no site, que se encontra com mais de um milhão de visitas, e inúmeras publicações que abordam o processo de evolução urbana de Belo Horizonte a partir da perspectiva da Geografia Histórica. Nestes dez anos de site só tenho a agradecer a tod@s os leit@res e amigos que fiz ao longo das pesquisas e que são a força motriz do trabalho realizado até agora. Abaixo parte de um pequeno texto que escrevi para o livro “Curral del Rey: a metrópole em preto & branco (1999-2019), que será lançado nas próximas semanas: 

Muitas são as Belo Horizontes em que vivemos. Para mim, apesar de ter nascido no ano de 1979, muitas lembranças das mudanças ocorridas na capital desde a década de 1980 vem à tona quando começo a mexer nos arquivos armazenados em minha mente. Morador do bairro Santo Antônio durante grande parte da minha vida, no entanto criado em Santa Tereza, guardo em minha memória a chácara na Rua Pitangueiras, demolida no final da década de 1980 para a construção de um edifício residencial. Também se encontra em minhas memórias uma tranquila Avenida Prudente de Morais sem semáforos e a agradável perspectiva das janelas do meu apartamento, da qual era possível visualizar quase toda a Avenida Raja Gabaglia, parte da Serra do Curral, o Neon do hospital Biocor e o Morro do Papagaio, ouvindo ainda, nas silenciosas madrugadas, a composição do Ramal de Águas Claras transportando o minério extraído da Serra do Curral para o além-mar.

A barragem Santa Lúcia era um dos locais preferidos para andar de bicicleta e brincar em meio ao mato e aos barrancos formados pelas movimentações de terra e assoreamentos oriundos da urbanização e ocupação dos bairros adjacentes, ocorrido ao longo das décadas de 1970 e 1980. Isso, falando apenas do bairro Santo Antônio e adjacências. De Santa Tereza, local onde passei boa parte da minha infância e adolescência, me lembro das remoções das favelas ribeirinhas e do prolongamento da Avenida dos Andradas, onde aprendi a andar de bicicleta, na vastidão dos aterros do antigo leito do Arrudas e das pipas sobre uma inacabada ponte do Cardoso. Abaixo da Avenida Silviano Brandão havia apenas mato e casas às margens de um ribeirão que ainda corria em seu leito natural.

Lembro ainda das terras altas da capital, pouco povoadas e mesmo desabitadas, como a região da Lagoa Seca, região que frequentei semanalmente a pé e de bicicleta até os meus dezenove anos, vedada a partir do início da verticalização que encheu de pregos as vias até então desertas, fenômeno que presenciei in loco. E por inúmeras vezes, me refugiei no alto da Serra do Curral para assistir aos crepúsculos vespertinos mais belos que já vi. Tudo isso nada mais é do que fragmentos de memória de uma cidade que já conheci metrópole, com todas as suas belezas e mazelas, uma cidade caótica, mas que apresentava um agradável relacionamento entre seus citadinos, o que, infelizmente, em parte vem se perdendo com a consolidação de uma cultura materialista-individualista explícita e ignorante.

Nesse contexto do resgate memorial dos fragmentos, paisagens, percepções e mesmo situações vividas ao longo de nossa existência, na década de 1990, mais precisamente no ano de 1996, comecei a fotografar diversas paisagens dentro e fora de Belo Horizonte, que possibilitaram as múltiplas percepções não só da cidade, mas também do rural, do natural e das perspectivas e interações entre os elementos da paisagem, alguns peculiares a Minas Gerais e utilizando uma máquina fotográfica analógica, uma vez que as câmeras digitais eram muito caras e se encontravam em evolução, além do fato de que na época não me atraía nem um pouco a ideia de fazer uma dezena de imagens de um mesmo local e só aproveitar uma ou duas, visto que os filmes eram caros, ainda mais em preto e branco. Hoje vejo que essa ideia, com as suas devidas ressalvas, foi importante para o meu aprendizado e para a transição para o digital.

Nos primeiros anos do século XXI eu fotografava prioritariamente paisagens do interior de Minas Gerais e mesmo de outros Estados, tanto a cores quanto preto e branco, utilizando para as fotografias a cores uma Olympus Stylus portátil, que fazia fotos panorâmicas e que ao mesmo tempo era compacta, diferentemente da Konica, utilizada para as fotografias preto e branco e que exigia o transporte de lentes e tripé. Nesse período, as minhas preferências eram por registros que compreendessem paisagens naturais e as reminiscências históricas do Estado e fora dele, o que acabou por me possibilitar conhecer uma quantidade considerável de cidades. Registrava Belo Horizonte? Sim, mas com uma frequência irregular, uma vez que ainda não tinha uma clara percepção do espaço e das múltiplas relações entre a sociedade e o meio que resultam na ininterrupta transformação da cidade. A capital mineira é a minha matriz, mas na época eu ainda não possuía uma ideia clara da importância de se registrar as paisagens urbanas que se encontravam em transformação e as reminiscências de paisagens pretéritas.

O ingresso no curso de Geografia da PUC Minas no ano de 2003 ampliou o meu horizonte em relação a metrópole mineira, uma urbe de vanguarda que busca incessantemente a modernidade, uma urbe de construções e demolições constantes, um organismo vivo de grandes pluralidades e contradições, rupturas e permanências. Aos poucos, Belo Horizonte deixou de ser apenas a minha cidade natal e passou a despertar sentimentos, percepções e questionamentos que foram se ampliando nos anos seguintes, ao mesmo tempo em que a adoção da fotografia digital, ocorrida no ano de 2005 para facilitar os registros dos trabalhos de campo, possibilitou a captação de imagens para fins documentais, me desobrigando dos custos de revelação.

No ano de 2006, a partir de uma pesquisa sobre a Fazenda Capitão Eduardo, reminiscência das antigas propriedades rurais do século XIX no município, realizada no Instituto de Geociências Aplicadas e no Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, ambos na Rua Itambé, comecei a ter contato com os relatórios dos prefeitos da capital, publicação anual que me despertou a atenção para os detalhes e imagens de paisagens que até então desconhecia, ainda que, desde os meus dez anos de idade, a partir de um livro (Memória da Economia da cidade de Belo Horizonte) do acervo da Biblioteca Pública Infantil e Juvenil localizada na Rua Carangola, comecei a ter contato com textos e imagens históricas da capital, até então publicadas em doses homeopáticas e que ainda não possuíam o valor atribuídas a elas na atualidade. Isso demonstra a importância em que a leitura e as bibliotecas possuem na formação do indivíduo e o quanto são negligenciadas na atualidade por uma parcela da sociedade cada vez mais ignorante, alienada e estúpida, que prefere se instruir pela Internet e redes (anti)sociais, ao invés de ler livros e debater de maneira racional as questões pretéritas e atuais.

Ao mesmo tempo em que o contato com os acervos documentais se intensificavam, as instituições guardiãs dos acervos fotográficos começavam a disponibilizar em formato digital as fotografias que registravam o processo de evolução urbana de Belo Horizonte, ou seja, esses fatores, aliados à ampla visão que a geografia proporciona, em um momento em que a cidade e a sua paisagem urbana se transformavam com as obras do Boulevard Arrudas e a Linha Verde, além dos edifícios não paravam de surgir no horizonte, me despertou para a necessidade de registrar de maneira contínua as transformações na paisagem urbana, ao mesmo tempo em que iniciei as pesquisas sobre a capital, a partir da perspectiva geográfica-histórica urbana.

O ano de 2007 pode ser considerado o ponto de partida das pesquisas, que três anos mais tarde se converteram no Curral del Rey, blog batizado com o nome do povoado que deu lugar a nova capital de Minas. Adotou-se o topônimo primitivo (Rey), de origem galego-portuguesa e amplamente utilizado na primeira metade do século XVIII, ao invés do topônimo (Rei), este último utilizado de maneira frequente a partir da segunda metade do século XVIII. Ressalta-se que os dois topônimos se encontram corretos ao se referir ao arraial e se encontram em diversos documentos entre 1720 e 1890. O blog foi criado para promover o amplo acesso às pesquisas realizadas por mim e publicadas numa linguagem simples e direta, pois a pesquisa não se deve restringir a academia e nem se prender a uma linguagem puramente técnica, lembrando que a sociedade deve tomar conhecimento e se beneficiar de tudo que é produzido pela ciência.

Nos últimos quatorze anos, realizei mais de seiscentas pesquisas de campo em Belo Horizonte, não só para registro fotográfico, mas também para tomar conhecimento das peculiaridades, realidades, aspectos e para o registro das memórias e informações sobre a cidade, sem contar as visitas aos arquivos, bibliotecas, aquisição de material sobre a capital, livros (inclusive as publicações originais da CCNC e o relatório de 1893), revistas e fotografias, além de conversas e encontros com pesquisadores e citadin@s, que oxigenam o cérebro e aprofundam a discussão sobre Belo Horizonte e suas múltiplas faces.

As imagens, antigas e atuais, procuram atestar toda a mudança paisagística da capital mineira, onde a concentração e atuação ao longo das décadas de determinados grupos em determinadas áreas geraram formas e deixam marcas na paisagem, adaptada e modificada a partir de suas necessidades e interesses. Nesse contexto, as fotografias ainda possuem a função de complementar as pesquisas realizadas sob a ótica geográfica-histórica, um campo de estudo que pode ser definido como um ramo da Geografia que estuda o presente que existiu em algum momento do que hoje é passado (Silva, 2012), que se preocupa em recuperar as espacialidades pretéritas que marcam as espacialidades atuais (Erthal, 2003).

Dentro dessa perspectiva, a construção e metropolização da cidade de Belo Horizonte se concentram em um período de setenta anos (1896/1966), ou seja, um espaço de tempo consideravelmente pequeno e repleto de informações abordadas de maneira pontual, parcial ou nunca abordadas, o que acabou por criar lacunas espaciais e temporais nos registros sobre o processo de evolução urbana. Ressalta-se que, nesse mesmo período, a fotografia se popularizou e passou a ser utilizada como propaganda oficial e não oficial, atestando toda a mudança paisagística de uma cidade que se reinventou e se modernizou ao longo do século XX.

Enfim, entre erros e acertos, a pesquisa sempre procurou explicitar as múltiplas faces de uma cidade de ares joviais e ao mesmo tempo tradicionais, onde muitos ainda acreditam que se afastar dos seus elementos e do meio ambiente é necessário para atingir a tão almejada modernidade, uma modernidade que gera notáveis disparidades espaciais, sociais e contrastes tão peculiares à metrópole mineira, uma urbe que ao mesmo tempo em que queria e quer ser moderna e plural, ainda conserva algumas tradições e costumes que estranhamente se perpetuam em um Estado guardado pelas montanhas.

Abaixo algumas imagens feitas nos primeiros anos de pesquisa e registro e fotos de algumas das pesquisas de campo realizadas no munício de Belo Horizonte e em suas bacias hidrográficas.


Cachoeira do Freitas (ribeirão Arrudas) 1999: uma das primeira imagens de BH feitas pelo Autor.
Acervo Alessandro Borsagli


Mina de Águas Claras, 2000
Acervo Alessandro Borsagli


Rosa dos Ventos (PUC Minas) pouco antes da substituição da pintura por pedra, 2003.
Acervo Alessandro Borsagli


Hotel Imperial, 2003.
Acervo Alessandro Borsagli


Antiga Fafich e os anseios por liberdade, 2004.
Acervo Alessandro Borsagli


Morro das Pedras e bairro Gutierrez, 2004.
Acervo Alessandro Borsagli


Abertura da Avenida do Cardoso, 2007.
Acervo Alessandro Borsagli


Linha Verde, 2008.
Acervo Alessandro Borsagli


Metrô de Belo Horizonte, 2009.
Acervo Alessandro Borsagli

Fonte: BRITO, Saturnino. Obras Completas, vol.XX, Imprensa Nacional, 1944.

Refletindo um pouco sobre as chuvas dos anos de 2019/2020, sobre barragens nas cabeceiras e como o poder público se comportará a partir de agora, transcrevo parte da minha dissertação de Mestrado, onde abordo a relação entre a evolução urbana de Belo Horizonte e as intervenções na rede hidrográfica:

"Ao analisar os trabalhos de mapeamento do sítio onde se construiu a nova capital de Minas Gerais, percebe-se que os estudos foram realizados de maneira sistemática, de modo a conhecer melhor o território a ser adaptado e modificado a partir de preceitos então considerados imprescindíveis para a construção de uma urbe racional, higiênica e salubre, na qual a rede hidrográfica foi um item considerado de suma importância para a escolha do sítio. No entanto, observa-se que a rede hidrográfica não foi levada em consideração na elaboração da planta da nova capital, exceção feita a Serra do Curral, limite sul do planejado, ao ribeirão Arrudas, inserido no tecido urbano planejado como um elemento de referência geográfico-paisagística e ao interflúvio Arrudas/Onça, limite norte do planejamento da CCNC.

Pode-se concluir que a partir desse momento (1895), ocorreu a ruptura entre a cidade planejada e a rede hidrográfica, que deveria ser controlada pelo racionalismo geométrico da urbe na medida em que o tecido urbano fosse crescendo, onde o caminho das águas deveria ser ditado pela técnica e não pelo meio natural, onde a ideia da busca pela menor permanência das águas fluviais dentro da urbe significava ainda uma maior salubridade para a cidade. Nesse contexto, observa-se que ao mesmo tempo em que os cursos d’água sofreram intervenções de ordem técnica, os transbordamentos de fundo de vale passaram a ocorrer de forma regular, visto que o caminho natural das águas e a perda das planícies de inundação, porções de terras valiosas para o poder público, não foram consideradas no momento das intervenções.

As obras de intervenção na rede hidrográfica, até a década de 1940 acompanhou de maneira satisfatória a evolução urbana no município. A partir de 1950, período que pode ser considerado o início do processo de metropolização de Belo Horizonte e o ano de 1965, observa-se uma crescente disparidade entre a expansão urbana e as intervenções fluviais, fator que contribuiu para o surgimento de uma aversão à permanência dos cursos d’água dentro da cidade a partir do aumento do despejo de esgotos domésticos e industriais, descarte de resíduos e transbordamentos frequentes, que contribuiu para o surgimento de doenças ligadas ao consumo e contato com as águas poluídas.
Ressalta-se ainda que o protagonismo rodoviário nas políticas urbanas do município foi fator determinante para a ampla cobertura dos cursos d’água de Belo Horizonte, iniciada oficialmente no ano de 1963 e em uso até a atualidade.

As intervenções na rede hidrográfica de Belo Horizonte acarretaram na piora dos transbordamentos dos fundos de vale a partir de 1930, sendo que apenas o período compreendido entre 1965 e 1977 apresenta uma sensível melhora nos transbordamentos dos afluentes do ribeirão Arrudas, que apresentou ao longo do processo de evolução urbana um aumento gradativo dos transbordamentos, ressaltando que as grandes obras de intervenção fluvial se iniciaram na bacia do ribeirão da Onça apenas no ano de 1974. Ademais, apesar da sensível melhora no período 65/77, observa-se que os transbordamentos nas bacias dos ribeirões Arrudas e Onça ocorrem de maneira regular desde o final da década de 1970, ainda que as administrações municipais anunciem ao longo das últimas quatro décadas obras de intervenção fluvial que contribuem para a potencialização dos transbordamentos de fundos de vale, fenômenos naturais agravados pela realização de obras mal planejadas e mal executadas.

Ressalta-se que o alto grau de impermeabilização das sub bacias e a massa hidráulica drenada para o canal do ribeirão Arrudas podem ser considerados fatores determinantes no seu transbordamento regular, onde as perdas materiais e humanas ocorrem de maneira frequente há cerca de nove décadas. Nesse sentido, pode-se concluir que o problema dos transbordamentos se deve pela insistência do ser humano em habitar áreas que não deveriam ser habitadas e modificadas, como as planícies de inundação. No entanto, as sociedades buscam desde a antiguidade intervir nos fenômenos da natureza, na esperança de que um dia alguns dos fenômenos possam ser controlados, ainda que a busca contribua para a alteração dos fenômenos, no qual Brito (1944, p.49) observa que o problema das inundações é, portanto, um problema estabelecido pelos caprichos da atividade do homem, onde a impossibilidade de se resolver o problema deve ser aceito para que se evite trabalhos desnecessários, o desperdício de vultosas quantias e desilusões."

Fonte: Borsagli, Alessandro. Do convívio a ruptura: a cartografia na análise histórico-fluvial de Belo Horizonte (1894/1977). Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Geografia - Tratamento da Informação Espacial, Belo Horizonte, 2019.


Rua Timbiras, 1967.
Acervo APCBH/ASCOM

"A cada golpe, caía por terra um pedaço da tradição belorizontina, imolada antes as exigências irresistíveis do progresso". Revista Três Tempos, 1962 (Corte dos Fícus da Praça Sete).

     A citação acima soa de maneira atual, uma vez que o corte diário de árvores em Belo Horizonte nos últimos anos (e a não substituição) vem atingindo níveis absurdos, no entanto foi dita há quase seis décadas atrás, no fatídico ano de 1963 que pode ser considerado como o início da erradicação dos elementos naturais da paisagem urbana de Belo Horizonte, uma vez que a massa vergel e as águas urbanas se encontravam em rota de colisão com o modelo urbano adotado na década de 1930.

      A década de 1960 foi emblemática para a capital mineira, que atingiu o seu primeiro milhão de habitantes no ano de 1967 em meio a uma reforma urbana intitulada Nova BH 66, um programa que "oficializou" o rompimento entre a sociedade e o meio, que cedeu o seu espaço, controlado ou não, para os ideais rodoviaristas que protagonizavam desde a década de 1950 as políticas urbanas de Belo Horizonte, ressaltando que as mudanças paisagísticas não se resumem apenas à pressão rodoviarista, em uma cidade que se verticalizava na mesma velocidade em que o seu tecido urbano se expandia para todos os lados.


Corte dos Fícus na Praça Sete, 1962.
Fonte: Revista Três Tempos


     O corte dos Fícus da Praça Sete em julho de 1962 deu início a derrubada maciça das árvores no município, então com cerca de 750.000 habitantes. No ano seguinte os Fícus foram novamente vitimados pela lei do machado na Avenida Afonso Pena e em outras vias, assim como os cursos d’água, que começavam a desaparecer da paisagem urbana da capital a partir das obras que tinham como um dos objetivos o alargamento das vias, ou seja, preludio do que viria após o golpe de 1964 que acabou cassando o prefeito Jorge Carone e o seu vice Jair Negrão de Lima, assumindo Oswaldo Pieruccetti, cuja gestão lançou o programa de reforma urbana Nova BH-66.

    O Nova BH 66, nascido de uma parceria entre a Prefeitura e a Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, foi criado com o objetivo de realizar a melhoria da infraestrutura urbana de Belo Horizonte, que já se encontrava em uma situação de extrema gravidade, dando sinais de colapso desde a década de 1950. Em meio a quase um milhão de habitantes, a capital apresentava problemas de toda ordem, desde córregos poluídos e esgotos transbordando até a questão da mobilidade e da segurança, com a população construindo muros e grades para se abrigar da crescente violência urbana, ao mesmo tempo em que os abastados iniciavam a “fuga” da zona planejada. Dentro dos objetivos propostos estavam as bases do projeto:

- A canalização, cobertura e alargamento dos canais de diversos cursos d’água.

- O asfaltamento dos logradouros, estreitamento das calçadas, abertura de novas vias e o abastecimento de água. 

Caminhada sobre um curso d'água canalizado.
Acervo APCBH/ASCOM

     Não é à toa que Belo Horizonte, antes aclamada pelo seu clima fantástico e águas límpidas, local singular para o tratamento de doenças respiratórias, tornou-se uma cidade que vitimava a sua própria população com doenças transmitidas pela água e pelo ar. 
     O engenheiro civil Luís Gonzaga de Sousa Lima, assumindo uma cidade mergulhada no caos, suspendeu grande parte das obras do Nova BH 66, dando prioridade apenas para as canalizações e coberturas iniciadas no ano anterior. A reestruturação administrativa iniciada por ele afetou também as obras de captação do rio das Velhas, visto que o DEMAE teve suas verbas reduzidas durante a gestão (1967-1971).

Obras de alargamento das alamedas da Praça da Liberdade.
Acervo APCBH/ASCOM

Avenida João Pinheiro, 1967/1968.
Acervo APCBH/ASCOM

     No entanto, o estrago causado pela reforma urbana já estava consolidado e a lei do machado e do rolo compressor continuou a imperar na capital. Souza Lima realizou ainda o alargamento das alamedas da Praça da Liberdade à custa do corte dos Fícus, o corte das árvores da Avenida João Pinheiro e "oficialmente" converteu os rios urbanos em emissários de esgotos, ao vislumbrar nas águas encaixotadas a “solução” para o problema sanitário de Belo Horizonte, ao esconder por alguns quilômetros a sujeira debaixo do tapete betuminoso¹.
      Desde então, o verde ficou confinado nas praças, parques e vias que conservaram sua arborização ou receberam árvores a partir da década de 1970, restringindo-se ainda a bacia do ribeirão da Onça/Izidora, guardiãs dos últimos remanescentes vergéis do município, ao mesmo tempo em que as águas passaram a correr sob os pés dos novos curralenses, a partir da ininterrupta cobertura da rede hidrográfica.
     Enfim, à custa de propagandas maciças e de atitudes vistas por muitos como imprescindíveis para a continuidade do "progresso", a urbe mineira nunca mais voltou a ser a bela e afamada cidade vergel nas primeiras décadas, devido a imposição de um modelo que contribuiu ainda mais para a ruptura entre a cidade e o meio.

Cidade Vergel, década de 1930.
Acervo BN

A frondosa arborização da Avenida João Pinheiro no 
início do século XX.
Acervo Museu Imperial

*Referência do texto: BORSAGLI, Alessandro. Sob a sombra do Curral del Rey: alcunhada Bello Horizonte, v.2. São Paulo: Clube de Autores, 2017.

**Recomendo acompanhar a página "Arvores cortadas Belo Horizonte" no Facebook para compreenderem a dimensão da questão.

¹ Rios invisíveis da metrópole mineira, 2016.

Fonte: Acervo Alessandro Borsagli

     Dentro da série "Paisagens Pretéritas" publico hoje uma imagem da década de 1920 referente a parte do bairro Funcionários e adjacências, que apresenta ao observador inúmeros elementos de uma cidade planejada para se visualizar a Serra do Curral de qualquer ponto do perímetro delimitado pela CCNC para a nova capital.

      O bairro Funcionários e a sua "massa vergel" destacam-se na paisagem urbana de uma cidade que nesse período chegava aos 100 mil habitantes e se expandia para os vales do córrego do Leitão e do Acaba Mundo, este último já parcialmente ocupado pelo bairro Funcionários. Nesse contexto, observa-se ainda a existência de sua mara ciliar, uma vez que o curso d'água permaneceu em leito natural até o ano de 1928, data da inauguração do canal construído na Rua Professor Morais e Avenida Afonso Pena.

     Destacam-se ainda a Serra do Curral e a porção do maciço arrasado pela mineração, as obras de conclusão da Avenida Afonso Pena, em direção a Praça do Cruzeiro (Praça Milton Campos) e a caixa d'água do Cruzeiro, que nesse período recebia as águas do córrego da Serra. Uma imagem que à primeira vista parece simples, no entanto rica de detalhes e informações de um período de profundas transformações espaciais em Belo Horizonte.

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis