Antiga Chácara às margens da Avenida Cristiano Machado, 2026.
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    Nestes tempos em que a IA é tida como a “salvadora” de parte de uma humanidade cada vez mais acomodada e zumbificada pelas redes sociais, que resume o seu conhecimento em vídeos e postagens de cunho duvidoso, que não duram mais que três minutos, andar por aí sentindo os cheiros, tendo contato com as pessoas e ruas, a energia emanada pela cidade e pelo campo se torna um prazer que remonta à nossa necessidade sensorial, que vem sendo cada vez mais deixada de lado em meio a essa loucura do tempo real e imediato. Temo pelo futuro da sociedade que, aos poucos, vem novamente sendo empurrada de volta à ignorância e à superstição.

    Nesse sentido, o trabalho de campo se torna cada vez mais prazeroso, não só por sair da mesmice de um mundo cada vez mais pasteurizado e digital, mas também pela(s) visita(s) a locais que remontam a períodos em que a vida era mais tranquila e limpa, e não tão dinâmica quanto a atualidade. Dito isso, a “descoberta” de uma chácara ainda existente na Avenida Cristiano Machado, e publicada no livro “Arraial de Bello Horizonte”, publicado no formato digital (gratuito) e físico no ano de 2019, sempre nos lembra que, antes das vias arteriais e rios canalizados, predominavam na região pastos, plantações, estradas de terra e a harmoniosa convivência entre a existência humana e os elementos naturais

    A existência, uso comercial da edificação e preservação de reminiscências como a chácara aqui publicada, uma das últimas ainda existentes dentro do município de Belo Horizonte, chamam a atenção do observador mais atento, que louva e clama a sua plena preservação, sentinela centenária (e talvez a única) ainda existente na porção média da bacia hidrográfica da Pampulha/Onça. 

A Chácara em destaque na Planta do Município de Belo Horizonte, 1936.
Modificado de APCBH, publicado no Arraial de Bello Horizonte, 2019.

A região, em imagem de satélite (2019).
Fonte: Google Earth




 

     Disponível para leitura o artigo “O Quadrilátero Ferrífero e sua Influência na Geopolítica do Golpe de 1964 no Brasil”, publicado na Revista Estudos Geográficos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Geografia (UNESP - Campus de Rio Claro). Abaixo o link de acesso e resumo

Link de acesso: Clique Aqui

Resumo

O artigo analisa a influência exercida pelos Estados Unidos na questão mineral brasileira, uma vez que a exploração do ferro em Minas Gerais foi determinante no apoio estadunidense ao golpe de 1964. A exploração mineral e as pressões exercidas pelos Estados Unidos para obter o monopólio das minas de ferro do Quadrilátero Ferrífero no período levou a uma aliança que lançou bases para a transnacionalização da exploração mineral no Brasil, abordando questões que até então são pouco debatidas em conjunto – a relação entre os anseios da mineração no contexto brasileiro do século XX, as questões geopolíticas envolvidas, com ênfase para o golpe militar de 1964, a relação entre o empresariado brasileiro e os militares e a influência dos interesses estrangeiros na exploração mineral.


 



Com essa imagem inédita, pertencente ao meu acervo e que integrará um livro a ser divulgado nos próximos tempos, agradeço a tão esperada demolição do “puxadinho” que acabou com a Praça da Independência, integrante do projeto original dos edifícios Sulamérica e Sulacap, construídos na década de 1940 em consonância com as obrigatoriedades impostas pelo município para a construção na referida quadra (a praça Tiradentes da CCNC).

Para saber mais sobre o quarteirão e a sua história singular, recomendo a leitura do embrionário artigo “Os quarteirões não edificáveis: o caso dos Correios-Sulacap”, publicado em junho de 2010 no Curral del Rey e do capítulo sobre o edifício publicado no ano de 2017 no volume 2 do livro “Sob a sombra do Curral del Rey”.

Que a cidade Contorno, tão mutilada e arruinada ao longo dos tempos, porém bela e viva, seja presenteada com mais boas notícias e principalmente com atitudes como esta, que diga-se de passagem, se arrastava por bem mais de uma década.

Imagem: Acervo Alessandro Borsagli (cite a fonte de acordo com a Lei de Direitos Autorais/utilização de obra fotográfica).

 

Transbordamento do Leitão (1940), Rua são Paulo. Acervo Fernandes Linhares Morais publicada no livro Rios invisíveis da metrópole mineira (2016) e Rios urbanos de Belo Horizonte (2020).


Neste mês de janeiro de 2024 vários locais de Belo Horizonte ficaram submersos, o que não é novidade nenhuma no ano do centenário das primeiras intervenções da rede hidrográfica da capital mineira (sim, começaram maciçamente a partir do ano de 1924, e os transbordamentos também, tudo isso se encontra no livro Rios invisíveis da metrópole mineira, publicado há exatos oito anos).

 

Bacias como a do córrego do Leitão, apesar das intervenções realizadas ininterruptamente há um século nunca estarão livres dos transbordamentos, potencializados pelas intervenções, impermeabilizações e incompetências que tanto caracterizam a grande maioria das administrações municipais desde o ano de 1898 no que diz respeito aos elementos naturais em meio urbano.

 

Enfim, mais uma vez passamos pelos mesmos problemas que nunca serão plenamente solucionados, problemas que poderiam ter sido mitigados no passado e no presente e que nunca erradicados, pois transbordamentos são fenômenos naturais potencializados pela ação antrópica, pela incompetência das administrações municipais e agora pelas mudanças climáticas.

 

“Nesse sentido, pode-se concluir que o problema dos transbordamentos se deve pela insistência do ser humano em habitar áreas que não deveriam ser habitadas e modificadas, como as planícies de inundação. No entanto, as sociedades buscam desde a antiguidade intervir nos fenômenos da natureza, na esperança de que um dia alguns dos fenômenos possam ser controlados, ainda que a busca contribua para a alteração dos fenômenos, no qual Brito (1944, p.49) observa que o problema das inundações é, portanto, um problema estabelecido pelos caprichos da atividade do homem, onde a impossibilidade de se resolver o problema deve ser aceito para que se evite trabalhos desnecessários, o desperdício de vultosas quantias e desilusões” (BORSAGLI, 2019).


 Para saber mais: Borsagli, Alessandro. Do convívio a ruptura: a cartografia na análise histórico-fluvial de Belo Horizonte (1894/1977). Belo Horizonte, 2019, que pode ser baixada/lida neste LINK

 Borsagli, Alessandro. Rios invisíveis da metrópole mineira (2016); Rios urbanos de Belo Horizonte (2020).




Devido à mudança nas regras do Issuu, que limitou o acesso aos arquivos grandes, o livro Arraial de Bello Horizonte, publicado no ano de 2019 pode ser baixado no link abaixo:


Boa leitura a todos e um ótimo 2024!

 

Entroncamento das estrada para os Fechos (Speedway) e estrada Belo Horizonte-Macacos 
(Trilha Perdidas) no ano de 1952. Imagem encontrada e identificada durante as pesquisas.
Acervo APCBH/ASCOM

Link para leitura: CLIQUE AQUI    

     Três anos para encontrar a história da icônica Trilha Perdidas.

Ou, três décadas. Foi lá nos anos 1990 que @borsagli começou a pedalar por este emaranhado de caminhos nas bordas de Nova Lima com Belo Horizonte, ligando os Ribeirão de Macacos e Mutuca.

@bernardobiagioni só apareceu para pedalar e correr aqui nos anos 2000. Mas, escrevendo um artigo sobre o Forte de Brumadinho, em 2020, encontrou o rumo da Trilha Perdidas em um mapa de 1936. E, depois, em documentos do século XIX.

     Mas, peraí, a Perdidas não era essa trilha aberta pelas motos?

Depois de três anos em intensas correspondências digitais, com mais de 30 horas de áudios e infinitos documentos trocados, publicamos enfim o artigo Das Tropas às Trilhas.

Mais do que a história da Perdidas, este trabalho é uma investigação profunda dos primeiros caminhos que definiram a ocupação do hoje chamado Quadrilátero Aquífero
Ferrífero. E, adivinhe só: a Perdidas sempre esteve por aqui!

À todos os motoqueiros, trilheiros, jipeiros, ciclistas, corredores, caminhantes e entusiastas em geral, fica o convite para a leitura. O artigo se encontra publicado no Cadernos de Geografia do PPGG TIE PUC Minas (Qualis da Geografia A1), com link em nossos perfis.

Espalhe e marque aqui quem possa se interessar. Que a mãe das trilhas tenha o seu valor reconhecido e não se perca em meio aos extravios morais de nossa sociedade. Que continue proporcionando às gerações futuras o que ela proporcionou e proporciona para a nossa.

     Quem sabe ainda dá tempo de salvar este caminho e esta história dos tempos estranhos que se anunciam no horizonte?




Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis