Avenida Afonso Pena no final do Século XIX vendo-se o local onde se construiu o edifício dos Correios alguns anos mais tarde. Um pouco acima se vê o Edifício da Delegacia Fiscal que existiu no local onde se encontra atualmente o Edifício Guimarães.
A titulo de curiosidade: um pouco a direita vemos o Almoxarifado da CCNC e entre ele e a Capela do Rosário está o Cemitério Provisório construído pela Comissão Construtora, no quarteirão do Banco do Brasil na Rua Rio de Janeiro.
Fonte: BARRETO, Abílio. Belo Horizonte: Memória Histórica e Descritiva, 1996.

    Ao projetar a nova capital Aarão Reis criou inúmeras praças e largos destinados ao embelezamento da nova capital criando espaços definidos para a socialização da população e atividades civicas, entre outras finalidades. Muitas destas praças não chegaram a ser implementadas ou desapareceram devido as diversas alterações no traçado urbano e várias destas áreas foram posteriormente transformadas em quarteirões edificáveis. Para se ter uma idéia pela planta inicial estava prevista a existência de 24 praças e largos na Zona Urbana. Dessas atualmente não existe a metade disso. Áreas hoje ocupadas pelo Colégio Pedro II, os edifícios Raposo Tavares e Louis Ench e os grupos escolares Barão do Rio Branco e Bueno Brandão foram inicialmente largos e praças sendo posteriormente refuncionalizadas, tornando-se na sua maioria áreas edificáveis. Vamos analisar mais detalhadamente o caso do largo que deveria ter existido na Avenida Afonso Pena na esquina com as Ruas da Bahia e Tamoios. O largo, batizado pela Comissão Construtora de Praça Tiradentes fazia parte de uma das quatro praças que deveriam ter sido construidas em casa uma das arestas do Parque Municipal. As outras três, a saber foram denominadas:

- Praça Benjamin Constant, no cruzamento das Avenidas Afonso Pena, Carandaí e Mantiqueira, atual Alfredo Balena.
- Praça 15 de Novembro, atual Hugo Werneck no cruzamento das Avenidas Mantiqueira, Aragauaia, atual Francisco Sales e Paraibuna, atual Bernardo Monteiro.
- Praça 15 de Junho, no cruzamento das Avenidas Araguaia e Tocantins, atual Assis Chateaubriand.

Essas Praças delimitariam o verdadeiro Parque Municipal de Aarão Reis. Atualmente o Parque¹ ocupa apenas ¼ da área projetada para ele, como se vê nas imagens abaixo.

Na montagem acima, feita pelo autor a partir das Plantas Cadastrais dos anos de 1895 e 1928 e da Imagem de Satélite do ano de 2009 está sinalizada em vermelho a área que deveria ter sido construída a Praça Tiradentes, segundo o plano de Aarão Reis.

    Voltando ao caso do quarteirão destinado a Praça Tiradentes (não confundir com a Praça 21 de Abril, localizada no cruzamento das Avenidas Brasil e Afonso Pena). Resolvi abordar a ocupação desse quarteirão devido a sua singularidade em relação aos outros quarteirões que inicialmente eram destinados a Praças, no que diz respeito à forma de ocupação e principalmente a arquitetura.
    Até o inicio do Século XX a parte inferior da área destinada a Praça permaneceu vazia conforme o projeto de Aarão Reis. A parte superior, o quarteirão compreendido entre a Avenida Afonso Pena e as Ruas Tupis e Tamoios que também fazia parte da dita Praça já estava ocupado desde a inauguração da capital, como vemos na primeira foto. Esse quarteirão foi inicialmente ocupado por particulares, posteriormente por órgãos do Governo e desde os anos 1930 ele está ocupado por diversas construções de finalidade comercial.

Foto de 1905 aonde se vê as fundações do edifício dos Correios.
Fonte: APCBH Coleção José Góes

    Em Agosto de 1904 é lançada a pedra fundamental do edifício dos Correios, obra bancada pelo governo federal e a área escolhida para a sua edificação foi justamente a parte inferior da Praça Tiradentes. Era o inicio da transformação espacial, do “vazio” não edificável ao “cheio” que, como dito anteriormente ocorreu em toda a Zona Urbana da capital. O prédio dos Correios foi inaugurado em 1906 e era tido como um dos símbolos da nova capital, aparecendo até mesmo em diversos Cartões Postais da época, como vemos na imagem abaixo.

Cartão Postal de 1910 retratando o edifício dos Correios. O seu estilo arquitetônico representava uma nova era para o Estado e essa imagem era então “vendida” como um atrativo da nova capital.
Fonte: Acervo MHAB

Foto de 1910 onde se vê todo o quarteirão ocupado pelos Correios.
Fonte: APCBH Coleção José Góes

    Nos anos que sucederam à sua construção a Avenida Afonso Pena se tornou o espaço da articulação urbana juntamente com a Rua da Bahia. A população crescia cada vez mais e o imponente edifício não atendia mais a demanda para a qual se propunha. No inicio dos anos 1930, devido a falta de espaço a Prefeitura inicialmente toma a decisão de expandi-lo mas em 1935 o Estado decide trocar o terreno antes destinado ao Congresso na própria Afonso Pena pelo quarteirão do edifício dos Correios, conforme relatório de 1935 do Prefeito Octacilio Negrão de Lima: “Prosseguindo as negociações iniciadas, conseguimos ver realizada a permuta do atual edificio dos Correios e Telegrafos pelo terreno ao lado do novo edificio da Prefeitura, na Avenida Afonso Pena”.

Foto de 1935 na qual aparece o edifício alguns anos antes de sua demolição.
Fonte: Acervo MHAB

    No final dos anos 1930 é decidido que o prédio dos Correios deveria ser demolido repassando o terreno para particulares, vendido então para o Grupo Sul América. Na planta cadastral feita na gestão do Prefeito Juscelino Kubitschek em 1941 o quarteirão aparece vazio, figurando como projetado por Aarão Reis, uma praça em pleno centro da capital, porém o edifício dos Correios só viria a ser demolido alguns anos mais tarde.
   Por volta de 1944/1945 teve inicio a construção das torres gêmeas dos edifícios Sulamérica e Sulacap, inaugurados em 1946. Em estilo Protomoderno os edifícios cubistas eram ladeados por dois edifícios menores em sua base e que, devido a sua posição criou um “vazio” entre eles, uma nova “praça” que criou uma perspectiva interessante do Viaduto Santa Tereza, enquadrando-o entre os edifícios e resgatando em parte a ideia de Aarão Reis, uma imposição do município para a venda do terreno no final da década de 30.

Imagem da primeira metade da década de 1940 onde se vê a esquerda o antigo edifício dos Correios em processo de demolição.
Fonte: BH Nostalgia

Planta Cadastral confeccionada durante a administração JK (1940-1945) onde figura o quarteirão vazio, pouco tempo antes da construção das torres Sulacap/Sulamérica.
Fonte: APCBH

As imagens acima, tiradas entre os anos de 1944/1946 mostram os Edifícios Sulacap e Sulamérica em construção.
Fonte: Acervo do Autor

Foto tirada do Viaduto de Santa Teresa pouco antes da inauguração das torres gêmeas dos Edifícios Sulamérica e Sulacap em Belo Horizonte.
Fonte: BH Nostalgia

Nas fotos acima podemos ver os edifícios no inicio dos anos 1960, com o interessante enquadramento da antiga Avenida Tocantins. A outra foto, tirada pouco tempo antes da construção do anexo de dois andares vemos a “praça” que foi criada entre os edifícios quando da sua construção.
Fonte: Acervo do Autor

    Essa praça existiu até meados dos anos 1970, quando lamentavelmente é construído um anexo de dois andares, preenchendo o “vazio” existente entre os edifícios e acabando com o enquadramento do Viaduto de Santa Tereza. A construção desse “puxadinho” coincide com a época de maior congestão do centro de Belo Horizonte, que sofria com o incontrolável crescimento urbano dos últimos trinta anos e do aumento do trânsito de veículos, principalmente os coletivos que até essa época ainda tinham os seus pontos finais nas ruas da área central. Abaixo do anexo figurava a “praça” completamente esmagada. Ela se tornou um local marginalizado, principalmente nos finais de semana e que então passou a ser evitado pelas pessoas que passavam pelo local. Atualmente existe um gradil que impede as pessoas de transitarem por baixo do anexo fora do horário comercial.
    A história da Praça Tiradentes, que virou quarteirão edificável em parte é a história da maioria das praças e largos projetados pela CCNC: praças essas que atualmente seriam muito bem vindas pois seriam “refúgios” entre a verticalização exagerada e o caos urbano que vemos atualmente na área central de Belo Horizonte e entorno. Infelizmente os administradores não entenderam o “recado” deixado por Aarão Reis e pelos membros da Comissão Construtora, sacrificando o bem estar e o convívio social em favor do progresso desenfreado.
Assim resumimos a história desse quarteirão: “Vazio” - Largo - Praça - Edifício Público - Edifício Particular + “Praça” ++ Anexo = “Cheio”.
Imagem de Satélite atual da área que seria ocupada pela Praça Tiradentes se ela tivesse sido construída.
Fonte: Google Earth

A figura acima faz parte do Plano de Reabilitação do Hipercentro de Belo Horizonte publicado em 2007. O Plano propõe que o Edifício Sulacap, devido a sua importância arquitetônica seja recuperado em parceria com o setor privado, retomando as suas características originais e abrigando bibliotecas, secretarias e fundações municipais.
Fonte: PBH/ Secretaria Municipal de Políticas Urbanas

Os edifícios atualmente, com o "puxadinho” de cor amarela obstruindo o enquadramento do Viaduto de Santa Teresa.
Foto: Rodrigo Eyer Cabral

Os edifícios em imagem aérea do ano de 2010.
Fonte: Google Maps


¹O Parque Municipal e a cronologia de sua dilapidação será um tema abordado posteriormente.

8 comentários:

  1. Parabéns pela pesquisa! Estava na hora de álguem escrever sobre esse quarteirão tão singular!

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  2. A demolição do antigo edifício dos correios foi um dos maiores absurdos que as autoridades da época fizeram com BH. Lamentável! Era o prédio mais belo da avenida Afonso Pena. Hoje, a sede dos correios é um prédio sem nenhum atrativo arquitetônico.

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  3. Dentro das propostas de revitalização do hipercentro de BH, a PBH e o Governo Estadual poderiam tentar, junto à iniciativa privada, uma parceria para comprar o anexo central do conjunto Sulamérica/Sulacap e transformá-lo em uma praça com fontes e iluminação especial. Para garantir a segurança, o local à noite poderia ser fechado ao público externo.
    O mesmo deveriam fazer com as construções comerciais que "engoliram" a fachada da Capela Nossa Senhora do Rosário, na rua São Paulo. Essa é uma das mais antigas construções da Nova Capital (1897). Aquela cobertura de metal ao fundo da capela é de um mal gosto sem precedentes. Claro, que qualquer iniciativa nesse sentido dependeria de patrocínio e da anuência dos atuais proprietários. Talvez um sonho, mas poderia ser tentada.

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  4. Olá Alessandro, falando sobre as praças da cidade, sinto falta de praças em BH, percorro essa cidade de bicicleta, e quase não há uma praça pra se parar, não bastando isso, criamos uma cultura que desvaloriza o que é público, que cria uma espécie de preconceito ou desprezo contra isso, aliado a uma apressada cultura "automobilística", que antes de "comer" algumas praças, tratam de torná-las inóspitas, tornado o acesso a elas mais difícil, pelo excesso de veículos e falta de respeito aos pedestres por parte de muitos condutores, além da poluição - sonora e do ar, o clássico exemplo disso é a praça São Vincente, no Padre Eustáquio, além de várias que parecem só existir nos mapas (Guiatel, vi em uma lista de 2005 ou 2006), pois suas localizações estão ocupadas por prédios, postos de combustível...(pelo menos pelo que vi nos mapas da Google - muitas praças que não existem), outras praças que estranhamente não possuem bancos, outras que só servem de enfeite, pelo dificílimo acesso (a que fica em frente a Usiminas), uma em Contagem que é cercada, por causa de uma igreja (Praça Paris) e muitas em aparente estado de abandono, o que ajuda a espantar a população.

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  5. Alessandro Borsagli07 julho, 2011

    Com certeza uma parceria com a iniciativa privada seria bem vinda, o Hipercentro de BH precisa ser revitalizado (de verdade) com urgência! E além de tudo ainda melhoraria a qualidade de vida para quem mora ou trabalha na região central, no aspecto visual e no convivio da população, principalmente ans horas de folga.
    Pois é, as iniciativas para a recuperação e manutenção das praças existentes são muito pequenas. O projeto de Aarão Reis valorizava essas "ilhas" dentro da "urbs" e seria muito bem vinda se essa ideia fosse retomada, melhorando o convivio entre a população. As pequenas praças atualmente servem apenas como canteiro central...

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  6. Fantástico! Belssimo trabalho. Certamente uns dos mais bem elaborados conteúdo de fonte de pesquisas.

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  7. Sei que essa postagem já tem anos, mas recentemente o vereador Gabriel Azevedo está com um projeto de comprar o anexo através de doações para assim poder demoli-lo e refazer a praça entre as torres.

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