Largo da Matriz em 1894.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

Conforme planejado pela CCNC o total arrasamento do antigo arraial do Curral del Rey estava quase concluído nos primeiros anos do Século XX. O sobrado que havia servido de escritório para a Comissão Construtora e posteriormente sede da Prefeitura já havia sido demolido, juntamente com outras casas importantes do antigo arraial. Bernardo Pinto Monteiro afirma em seu relatório de 1900 que “aproveitei na construção das mesmas as madeiras de lei, provenientes de casas do antigo arraial (...).” “As mesmas” nas quais ele se refere são as pontes construídas para transpor os Córregos que atravessavam a capital e as madeiras pertenciam às casas do antigo arraial que em ritmo acelerado a Prefeitura tratava de demolir, extinguindo todo o tecido colonial visando à abertura das ruas já projetadas e consolidar a modernidade e o racionalismo do qual nasceu a capital.
Uma das últimas casas pertencentes ao arraial foi derrubada no inicio de 1906 e ela se localizava nas proximidades da Rua Maranhão. Apenas a Igreja Matriz da Boa Viagem havia sido poupada, inserida no traçado urbano da nova capital como um remanescente do antigo arraial que ali existira. A Matriz da Boa Viagem era o centro do antigo arraial do Curral del Rey. O seu estilo jesuítico e as torres sineiras tortas chamavam a atenção em meio à modernidade pronunciada pela nova capital e era o oposto de tudo aquilo planejado pelos engenheiros e políticos.
De acordo com Abílio Barreto, mesmo com a autorização da Igreja para a demolição dos templos existentes no arraial (a Capela de Santana já havia sido demolida em 1894 e a Capela do Rosário foi demolida em 1897 para a abertura da Avenida Álvares Cabral e da Rua Guajajaras) a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem foi poupada, pois “a importância tradicional daquele templo se impunha tão eloquentemente que a Comissão Construtora, de acordo com o Governo, julgou de melhor aviso conciliar o traçado da capital com a conservação da Matriz (...) Desde então, nem o Governo, nem a Comissão, pensou mais em demoli-la”.
O fato de a Arquidiocese de Mariana ter se oposto à demolição do templo, conforme correspondências da época entre o Bispo e o Governador antes de se construir outro também foi um fator determinante para a sua inserção na malha urbana além da importância simbólica da Matriz no espaço urbano, fato compreendido posteriormente pelo governo e pela CCNC, que a inseriu na malha urbana da nova capital, reservando um quarteirão inteiro para ela.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem em 1894.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

A falta de ruas tortuosas, chafarizes ou casas antigas causavam uma impressão de “vazio” nas pessoas que visitavam Belo Horizonte. Habituadas com as antigas cidades coloniais mineiras, quase bicentenárias e ainda conservadas por inúmeros motivos, nos quais não entraremos em detalhes por agora, ao se deparar com uma cidade nova em folha, planejada e com edifícios de arquitetura Beaux-Arts os visitantes se surpreendiam e a questionavam, talvez assustados com tantas novidades.
Arthur Azevedo ao se deparar em 1901 com essa falta do “antigo”, do “velho” na nova capital escreveu:

"Ao meu espírito, ao meu temperamento de "touriste", faltava alguma coisa; a vetustez. Era novo, novinho em folha, tudo quanto eu via; as ruas, as casas, os próprios habitantes, pois é raro encontrar-se alí pessoas velhas. (...)
- "Que diabo! Façam-me ver alguma coisa velha!”Disse aos obsequiosos cicerones.
- Pois bem, vamos fazer-lhe a vontade mostrando a velha matriz da freguesia do Curral d'El Rei. E, é contentar-se com isso; não temos nada mais velho! Dirigimos-nos então à Igrejinha, que alí está, isolada e tristonha, como uma sentinela perdida no passado. (...) Foi pena que destruíssem tudo quanto era o antigo Curral d'El Rei e não ficasse ali um bairro, uma rua, um alpendre do velho arraial, que lembrasse, embora incompletamente, a fisionomia do passado. Pelo que vi das fotografias tiradas pelo sr. Soucasseaux e dos quadros de Emílio Rouéde, que se acham na Prefeitura, havia no arraial alguma coisa que merecia ficar”.



Matriz da Boa Viagem em 1910, pouco antes do lançamento da pedra fundamental da nova Matriz.
Fonte: Acervo do Autor

Como podemos ver na foto acima até 1911 o templo permaneceu inalterado e integrado a malha urbana da nova capital, porém condenado a ser “engolido” pelo pensamento vigente dentro da Igreja, que até meados dos anos 70 promoveu demolições de antigas Igrejas e Capelas por todo o Brasil, seja em nome do progresso ou mesmo por caprichos de alguns de seus integrantes. Belíssimos ícones da arquitetura barroca foram perdidos. Podemos citar alguns exemplos como a antiga Catedral da Sé de Salvador, a Igreja de São Pedro no Rio de Janeiro e a Igreja de Bom Jesus do Matozinhos em São João del Rei, sendo que esta última já se encontrava tombada pelo IHPAN.
Em 03 de Setembro de 1911 foi lançada a pedra fundamental da nova Matriz da Boa Viagem, no mesmo local da antiga ao invés do Morro do Cruzeiro, local indicado pela CCNC para a construção do novo templo. À medida que o novo templo foi sendo construído o antigo foi sendo deixado de lado, literalmente. Inicialmente sua fachada passou por uma remodelação, que o descaracterizou por completo, como vemos na foto abaixo, na tentativa de equiparar o templo à arquitetura dos edifícios construídos na capital nesse período. As torres sineiras foram demolidas, juntamente com quase toda a frente do templo. Posteriormente o edifício serviu de depósito de materiais destinados à obra do nova Matriz. Em 1925 com a nova Matriz pronta, a antiga Matriz da Boa Viagem foi finalmente demolida.

Matriz da Boa Viagem em 1919.
Fonte: Acervo MHAB

O que predominou na construção de Belo Horizonte foi a negação do colonial, o não colonial, o anti Vila Rica, Sabará, Diamantina e tantos outros baluartes coloniais que ainda temos e que nos lembra do nosso passado. Certamente o objetivo dos construtores e políticos da época foi atingido pois, após o ano de 1925 com a demolição da antiga Matriz da Boa Viagem findou-se toda a história do antigo arraial e quando se houve falar dele parece que já se passaram dez Séculos de seu desaparecimento. As milhares de pessoas que passam diariamente no local em que ele existiu certamente nem imaginam que antes de existir os quarteirões uniformes e as ruas paralelas, existia naquele mesmo local ruas tortuosas, casas coloniais e uma vida pacata. O rompimento com o passado promovido pela CCNC ocasionou uma rápida mudança no espaço e mesmo com mapas, plantas e fotografias tiradas na época fica difícil de imaginar, compreender e visualizar a área ocupada pelo antigo arraial, tamanha foi à mudança espacial do local.

Construção da nova Matriz e a esquerda a antiga, escondida pelas obras.
Fonte: APM

Existe atualmente apenas um edifício remanescente da época do arraial: a antiga sede da Fazenda do Leitão, atual Museu Histórico Abílio Barreto, apresentando-se em excelente estado de conservação. Existe uma outra edificação denominada “Fazendinha”, tombada pelo município em 1992 e que se encontra atualmente em péssimo estado de conservação existe a dúvida se é ou não remanescente do antigo arraial.


A "Casa da Fazendinha", construída no final do século XIX ,situada no Morro do Papagaio em foto de 2006.
Fonte: Foto do Autor

7 comentários:

  1. vc teria uma foto dessa casa para postar aqui? dessa que está nas terras de Ilidio Ferreira da Luz? Seria bastante interessante, a casa do museu eu conheço..

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  2. cara !!!! que show este blog, morei muitos anos em BH , sou carioca e agora voltei para o Rio, mas vendo este blog , fico com um misto de nostalgia e admiração pelo que Vi e de uma época que não vivi....

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  3. Parabéns pelo post.
    Adoro ler sobre a história de minha cidade. Os sentimentos são múltiplos: saudade de um tempo que não vivi, apreço pelo patrimônio arquitetônico que Bel Horizonte é e um grande aperto no peito de saber que todo um passado foi irreversivelmente apagado.
    O mais irônico disso tudo é que apagou-se um passado ao mesmo tempo que foram construídos edifícios que resgatam um passado que não nos pertence como brasileiros, como é o caso do neogótico das igrejas de Nossa Senhora da Boa Viagem e de Lourdes.

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  4. Sou natural de BH,e,na ativa tive o privilégio de fazer policiamento na área da Igreja N.Sra.da Boa Viagem.Ainda na década de 80,havia um antigo xafariz do lado direito da Igreja(a atual),que simbolizava o local exato da antiga matriz(anterior a 1776). A antiga capela,foi demolida por volta de 1930,dando lugar a moderna, de estilo gótico.Segundo o livro de Raul Tassini(Verdades Históricas e Pré-Hisóricas de Belo Horizonte Antes do Curral Del Rey(1947),existe no Museu Abílio Barreto,peças da matriz(demolida),que foram doadas por ele mesmo.Lembrando que tal xafariz,foi levado para o museu Abílio Barreto,não entendo até hoje o motivo dessa mudança do "marco" da matriz.Dizem que mna época de Maria,enfeitavam a Igreja com com folhas de manga,e,as meninas cantavam "No Céu,no céu,com minha mãe estarei".Havia no local um Relógio de Sol,de pedra,que servia para orientar os viajantes.

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  5. Prezado Alessandro:

    Parabéns por mais este estudo revelador!

    A Sede do Leitão não fazia parte do núcleo urbano do Curral-d'El Rey, como o governo estadual gosta de apregoar.
    Aliás, o sobradão distava cerca de 1.400 metros do arraial.

    Não sobrou absolutamente nada do antigo arraial, exceto, é claro, os sítios arqueológicos (muito destruídos) e o brejo (hoje Parque Municipal).
    Todas as edificações foram destruídas pela empáfia oficial.

    Isso é o que acontece quando as pessoas aceitam tudo o que vem de seus governantes.
    Amedrontados e intimidados pelo poder, cansados da luta por antecipação e submetidos à inércia que não demanda esforços, assistimos à rápida degradação de tudo o que estimamos.

    Grande abraço,

    Celso

    Celso do Lago Paiva
    celsodolago@hotmail.com
    http://independent.academia.edu/CelsoPaiva

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  6. A fazendinha é posterior , não é do período anterior à nova capital.Essa fazendinha situou-se lá em lote colonial traçado pela administração da nova capital mineira. Em arquivos da PBH consta informação sobre os lotes coloniais da região da Barragem Santa Lucia.

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