Parte das valas remanescentes da demarcação realizada em 1923 quando da anexação do Distrito de Venda Nova ao Município de Belo Horizonte.
Fonte: Foto do Autor

Durante séculos um dos sistemas usados para demarcar a divisão entre propriedades era a abertura de valas profundas. Não havia cercas e todas as divisas de terras eram demarcadas por abertura de valas profundas que até hoje ainda podem ser vistas em diversos lugares onde esse sistema foi utilizado. Um caso clássico dessa forma de demarcar uma determinada região com valas profundas foi o Distrito Diamantino, área demarcada pela Coroa Portuguesa com a finalidade de se explorar exclusivamente o diamante. A demarcação do distrito teve inicio na década de 1730 e atualmente ainda é possível identificar vários trechos dessa demarcação.
Esse sistema de demarcação por valas ainda era largamente utilizado quando da construção de Belo Horizonte na ultima década do Século XIX. Ele foi utilizado na primeira demarcação do município quando do seu desmembramento de Sabará em 1894. Desta primeira demarcação atualmente não existe resquício algum, pois grande parte das divisas eram determinadas pelas cristas das serras e pelos cursos d’água.
Nas áreas mais baixas do município de Belo Horizonte (a porção de terras compreendidas entre a Serra do Curral e a região Cárstica da RMBH) a demarcação das propriedades ainda era feita através do sistema de valas. As terras localizadas na margem esquerda do Ribeirão do Isidoro pertenciam ao Distrito de Venda Nova. Na verdade os limites dos dois municipios nesse período apresentavam grandes divergências, o que pode ser comprovado nas Plantas cadastrais confeccionadas no período.
No inicio da década de 20 os limites do município de Belo Horizonte foram novamente redefinidos com a Lei Nº843 de 7 de Setembro de 1923 que criou o Distrito de Venda Nova com áreas demembradas de Belo Horizonte e Santa Luzia sendo que uma vasta porção de terras constituidas por pequenos sitios e fazendas também passou a pertencer ao município de Belo Horizonte. Na necessidade de se demarcar os novos limites do município em alguns trechos em que não havia pontos culminantes ou cursos d’água a demarcação foi feita através de valas profundas, uma forma de divisão usada há Séculos de diversas maneiras, desde a divisão de propriedades particulares até a demarcação de grandes áreas administrativas. As valas abertas nesse trecho se estendiam desde as terras pertencentes ao Sanatório Hugo Werneck¹, segundo informações oficiais da época também anexado a Belo Horizonte em 1923 até as margens do Córrego Ponte Alta nas proximidades da atual Avenida Brasília no município de Santa Luzia. Esses distritos foram anexados anos mais tarde a capital e as plantas desse período já demonstram as intenções dos políticos em expandir as terras do municipio de Belo Horizonte. É bom lembrar que o crescimento urbano de fato só foi atingir essa região décadas mais tarde, poucos anos antes da criação da RMBH.


Parte do mapa de Belo Horizonte confeccionado em 1922, um ano antes da anexação de Venda Nova. Pode-se ver, entre outros detalhes o Ribeirão do Isidoro como a divisa entre Belo Horizonte e Santa Luzia.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte: FJP. 1997.


Esboço da nova Carta do Município de Belo Horizonte feita em 1923. Essa carta apresenta as novas delimitações da capital, com as terras desmembradas de Santa Luzia.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997.


Parte do Mapa de 1937 com a área visitada pelo Autor em destaque.
Fonte: PANORAMA de Belo Horizonte; Atlas Histórico. Belo Horizonte, FJP; 1997.

Com a criação do município de Vespasiano, desmembrado de Santa Luzia em 1948 alguns limites dos municípios foram novamente redefinidos sendo que a região onde se encontram grande parte das valas da antiga demarcação dos municípios passou novamente a pertencer a Santa Luzia. Até meados dos anos 70 essa região ainda era tipicamente rural, com o predomínio de sítios e de pequenas fazendas.
A partir da década de 80 a conurbação entre os dois municípios era claramente visível devido à expansão da malha urbana. Essa expansão diminuiu consideravelmente as áreas rurais de Santa Luzia. A continua expansão urbana desse município nos últimos anos transformou grande parte dos sítios e fazendas da região em bairros periféricos que apresentam um grande parcelamento do solo.
O trecho abordado nesse artigo é um dos últimos remanescentes dessa demarcação realizada nos anos 20. Esse pequeno trecho felizmente foi preservado por estar inserido atualmente nas terras da propriedade pertencente ao Senhor Ivo² localizadas na sua totalidade no município de Santa Luzia. É bom lembrar que grande parte das valas da antiga demarcação dos municípios já desapareceram devido a grande ocupação urbana da região.


A primeira vala, nas proximidades da Sede da Fazenda do Sr. Ivo.
Fonte: Foto do Autor


A sequência da mesma vala próxima a divisa com a Mata do Isidoro.
Fonte: Foto do Autor

Confesso que fiquei surpreso ao tomar conhecimento da existência dessas valas, acreditava que elas já haviam desaparecido há décadas e informado que no presente momento está sendo implantado um loteamento na região (bairro Liberdade) que certamente irá atingir no futuro as tais valas me dirigi o quanto antes à região para poder registrar tais resquícios de uma época em que grande parte da capital era constituída de sítios e fazendas. A propriedade do Sr. Ivo faz divisa com a Mata do Isidoro (Granja Wernerck), ultima porção do município de Belo Horizonte que ainda não foi loteada e é a maior área verde dentro dos limites da capital. A propriedade também faz divisa com o bairro Baronesa, pertencente a região do São Benedito. O fato de a região do Isidoro, até o presente momento (2011) não ter sido largamente ocupada ajudou a preservar os resquícios dos antigos limites dos dois municípios. Certamente, se a Mata do Isidoro for urbanizada a conurbação atingirá essas áreas.
A propriedade rural onde se encontram as valas é um dos últimos remanescentes da zona rural que se estendia desde os limites de Belo Horizonte com as cidades da RMBH. Atualmente existem duas sedes de antigas propriedades rurais ainda preservadas: a Fazenda Capitão Eduardo³ no bairro Ribeiro de Abreu e a Fazenda Souza Lima no bairro Gorduras. As outras fazendas, em sua maioria já foram loteadas e urbanizadas e as suas sedes demolidas.


Imagem de Satélite aonde se tem uma visão ampla da Mata do Isidoro e da região onde se encontram as valas da demarcação de 1923.
Fonte: Google Earth


Uma parte das valas ainda existentes. As setas indicam a direção das mesmas.
Fonte: Foto do Autor


Imagem de Satélite com o local das fotos acima sinalizadas. A imagem, do ano de 2008 apresenta ainda um entorno despovoado. Atualmente as áreas ao norte da imagem encontram-se cortadas por diversas ruas recém abertas.
Fonte: Google Earth


¹ As terras, pertencentes a Santa Luzia até 1923 foram doadas em 1916 pelo município de Belo Horizonte para a construção do Sanatório que funcionou nesse local até 1973. Essas informações constam nos relatórios dos Prefeitos da década de 20 e são divergentes com algumas informações disponiveis em meio digital. É bom lembrar que divergências nas informações nesse tipo de pesquisa são perfeitamente normais dado a falta de informações concretas. Muitas vezes o que está escrito nos relatórios oficiais não traduz a realidade vivida no municipio no período abordado. Por isso, recomendo também que se pesquise nos jornais e revistas da época disponibilizadas na Biblioteca Pública da Praça da Liberdade. Atualmente o Sanatório funciona como um Asilo para idosos.

² Aproveito para agradecer ao Sr. Ivo que me recebeu com grande cordialidade em sua propriedade, permitindo que eu examinasse as valas da antiga demarcação dos municípios de Belo Horizonte e Santa Luzia. Graças a ele eu também fiquei sabendo da existência de resquícios de trabalhos na região realizados por escravos, entre as valas e o loteamento Liberdade.

³ Essa Fazenda se encontra atualmente nas mãos do Governo Estadual e em suas terras foi construída a ETE Onça. Infelizmente a burocracia imposta pelo órgão responsável ainda não me permitiu conhecer e escrever sobre a Fazenda. Talvez no futuro eu consiga ter acesso a tal sede, quando os responsáveis se convencerem que o intuito da visita é apenas para fins de pesquisa...

Um comentário:

  1. Olá, também faço algumas pesquisas, principalmente sobre Santa Luzia. Nas pesquisas que fiz, Venda Nova foi anexada a Santa Luzia em 1938 e desmembrada em 1948, e alguns mapas do APM batem com a data. Um mapa mostra que santa luzia quase margeava a lagoa da pampulha

    ResponderExcluir

Comente a vontade

Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis