Planta da cidade de Belo Horizonte de 1895 onde se vê a Avenida do Contorno dividindo as Zonas Urbana e Suburbana.
Fonte: APCBH Acervo CCNC

A Avenida 17 de Dezembro ou Avenida do Contorno, nome adotado pelo próprio Aarão Reis foi traçada pela Comissão Construtora da Nova Capital para ser o limite entre a Zona Urbana e a Zona Suburbana. Ela dividiria a área reservada para os profissionais liberais, comerciantes e funcionários públicos da área destinada à população de menor poder aquisitivo. Dentro dos limites da Avenida tudo foi pensado e projetado para dar suporte ao crescimento racional e ordenado da nova capital a começar pelo traçado que distingue a zona urbana das demais regiões da capital até os dias atuais, além dos serviços de água, esgoto, calçamento até a arborização e recolhimento de lixo entre outros serviços. Nos primeiros anos do Século XX já era visivel a extrapolação dos limites da Contorno pela malha urbana da capital, principalmente nas colônias agrícolas que circundavam a zona urbana. Um dos motivos desse crescimento à partir dos subúrbios da capital era de que em toda a zona limítrofe com a Avenida do Contorno as leis que regulamentavam a delimitação dos lotes para a construção eram bem mais brandas do que os critérios definidos pela Prefeitura para as construções na zona urbana, que impunha inúmeras restrições para a liberação de uma determinada obra. Esse fato aliado à especulação imobiliária que inflacionou os terrenos dentro da zona urbana além da necessidade de se povoar as vastas áreas suburbanas foram os principais motivos para a lenta ocupação da dita zona além de atrasar a abertura e a finalização de diversas ruas e avenidas, entre elas a própria Contorno.
A Avenida, até o inicio dos anos 20 exibia todo o seu traçado apenas nas Plantas Cadastrais da capital. Ela era na verdade retalhos que circundavam a zona urbana. A Avenida existia em fragmentos na área central, no bairro Floresta e em partes dos bairros Serra, Santa Efigênia e Funcionários. Nos outros trechos a Avenida era apenas uma estrada estreita de terra ou mesmo uma trilha, como nas imediações dos bairros Cidade Jardim e Santo Agostinho, regiões que foram urbanizadas e ocupadas anos mais tarde.
Sobre a Avenida disse o chefe da Seção de Obras da Prefeitura em 1920:

“A Avenida do Contorno não está ainda aberta e regularisada de modo a contornar, de facto, a cidade; mas sei-o-á um dia e, portanto, precisa ser conservado o seu traçado primitivo”.

A partir de 1920 a finalização da Avenida passou a ser prioridade por parte da Prefeitura pois a cidade apresentava uma expansão na Zona Suburbana, principalmente nas áreas limítrofes com a Contorno. Muitos trechos da Avenida simplesmente haviam virado quarteirões devido a falta de uma Seção de Cadastro eficaz da Prefeitura que permitiu a ocupação irregular em diversos trechos da Avenida. Podemos citar como exemplo o trecho da Avenida do Contorno no cruzamento com a Avenida Carandaí e parte da Avenida Araguaia (Francisco Sales). A Avenida foi projetada pela Comissão Construtora para ter cerca de trinta e cinco metros de largura, mas em 1920 tinham apenas cinco metros de largura devido à existência ai de um lote irregular “vendido” pela Prefeitura no inicio do Século. Nesse caso a Planta Cadastral foi ignorada e para continuar a abertura da Avenida foi necessário um acordo com o “dono” do terreno, não sem ônus para a Prefeitura. Ainda nessa década a Avenida foi regularizada entre a área central e a Avenida Barbacena e no fim da década regularizada nos bairros de Santa Tereza e Santa Efigênia.

Na imagem pode-se ver a Avenida do Contorno sendo regularizada entre os bairros Santa Tereza e Santa Efigênia, na altura do Frigorifico Perrela.
Fonte: APM

Abertura da Avenida do Contorno no sentido bairro Floresta.
Fonte: APM

Durante a década de 30 até a sua conclusão já nos anos 40 a Avenida foi aberta e regularizada em alguns trechos entre o bairro Funcionários e o Barro Preto. Foi nesse trecho que a Avenida sofreu uma drástica alteração em relação ao seu traçado projetado pela Comissão Construtora. Como podemos ver na imagem abaixo o trecho compreendido entre a Rua Rio de Janeiro e a Rua Ouro Preto são na verdade trechos da Avenida Barbacena e Rua Antônio de Albuquerque, trechos estes que foram incorporados à Avenida do Contorno quando da sua abertura.

Foi feita uma grande mudança nos arruamentos das seções antes inseridas na Zona Urbana. Seções, ao mesmo tempo em que eram realizadas obras de infra-estrutura sanitária no vale do Córrego do Leitão área de extrema importância para a Prefeitura devido à arrecadação de impostos, entre outros fatores. Após a relocação da avenida entre as ruas Rio de Janeiro e Ouro Preto ela foi concluída no inicio dos anos 40 permitindo a expansão de uma área importante da capital, ocupada a partir da gestão JK pela população de maior poder aquisitivo e proporcionando a melhoria do acesso a toda a Zona Suburbana da capital.

Parte da Planta Cadastral de 1895 aonde vemos sinalizadas as áreas brejosas do Córrego do Leitão no local em que se abriu a Rua Joaquim Murtinho alguns anos mais tarde.

Mas qual teria sido o motivo da mudança de seu traçado? Em minhas pesquisas relacionadas a esse assunto não encontrei nada que justificasse essa mudança. Fez-se necessária então a analise das Plantas confeccionadas pela CCNC. Nelas o Córrego do Leitão tinha, nas proximidades da Fazenda do Leitão uma grande área brejosa e essa área seria exatamente cortada pela Avenida segundo a Planta de 1895. Como a Comissão Construtora não executou as obras nessa região ela se tornou posteriormente uma das colônias Agrícolas que existiram na infante capital de Minas, a Colônia Afonso Pena e mesmo após a sua incorporação à malha urbana de Belo Horizonte essa região continuou pouco povoada.

Na época em que se resolveu dar continuidade à Avenida do Contorno certamente houve um estudo da área em que deveria ser aberta a Avenida e acredito que três motivos levaram o Poder Público a relocar a Avenida suprimindo 12 quarteirões que seriam construídos dentro da zona urbana e que diminuiu consideravelmente a sua área. O primeiro motivo é o fato de que seria muito oneroso e dispendioso realizar uma drenagem das áreas brejosas do Leitão, áreas que até os dias atuais, mesmo estando totalmente ocupadas, saneadas e impermeabilizadas continuam apresentando sérios problemas nos períodos chuvosos, um retrato do desprezo e negligência dos órgãos responsáveis ao permitir a ocupação desenfreada nas vertentes do Córrego, sem levar em consideração a sua topografia além que, se esse trecho tivesse sido aterrado e nivelado quando da abertura da Avenida Prudente de Morais, na canalização do Córrego em 1970 os problemas seriam bem menores. O segundo motivo é que nessa época já existia a Rua Joaquim Murtinho, aberta exatamente no local em que deveria passar a Avenida e que já contava com diversas casas. Remanejar a população ai residente e alargar a rua certamente seria mais oneroso para a Prefeitura do que mudar o traçado da Avenida para uma região ainda desabitada. O terceiro motivo é que já existia uma consciência da necessidade de preservação da sede da Fazenda do Leitão, ultimo casarão remanescente da Freguesia do Curral del Rey. A Avenida, se aberta conforme a Planta Cadastral incluiria o casarão dentro dos limites da Zona Urbana e assim selaria a sua demolição.

Parte da Planta Cadastral de 1928 onde vemos sinalizadas o primitivo traçado da Avenida, a Fazenda do Leitão e as áreas brejosas nas margens do Córrego do Leitão.
Fonte: APCBH

A foto acima, datada do inicio dos anos 50 está sinalizada em vermelho umas parte das áreas brejosas nas margens do Leitão que foram drenadas e impermeabilizadas anos mais tarde com o prolongamento da Rua Joaquim Murtinho. Vemos também o Córrego ainda não canalizado, o Museu Abilio Barreto, a Faculdade de Odontologia e o Conjunto IAPB em construção além de outros edifícios.
Fonte: APCBH


Abertura da Avenida Prudente de Morais e canalização do Córrego do Leitão em 1970, no cruzamento com Rua Joaquim Murtinho.
Fonte: APCBH/ASCOM

Parte das antigas áreas brejosas do Córrego do Leitão no cruzamento das Ruas Joaquim Murtinho e Marquês de Paranaguá hoje impermeabilizadas e como não foram niveladas além de apresentarem um deficiente escoamento das águas essas áreas sofrem constantes alagamentos nos períodos chuvosos como vemos nas imagens acima, do ano de 2009.
Fonte: Portal Uai/EM

Estragos causados pelas enchentes no cruzamento das Ruas Joaquim Murtinho e Marquês de Paranaguá no ano de 2009.
Fonte: alissonbraz/Panoramio

A Avenida do Contorno é apenas uma das diversas vias que sofreram modificações no seu traçado original devido às construções irregulares ou por necessidade de se acompanhar um curso d’água. No caso da Contorno a mudança foi mais drástica, a tal ponto de extinguir diversos quarteirões da Zona Urbana que na verdade, em relação a arrecadação de impostos e venda de lotes não fez diferença pois a área suprimida se tornou anos mais tarde uma área nobre da capital, conservando-se assim até os dias atuais. Ao modificar acertadamente o traçado da Avenida desviando-se da área brejosa do Córrego do Leitão a Prefeitura evitou um problema que ainda existe na área no período chuvoso, mas que certamente seria muito mais grave caso a Avenida tivesse sido aberta segundo o traçado original devido ao grande fluxo de veículos que passam diariamente pela Avenida.

Traçado da Avenida do Contorno em 2009. Em vermelho o primitivo traçado no vale do Leitão.
Fonte: Google Earth/ acervo Curraldelrey.com (2010), traçado feito pelo Autor.

6 comentários:

  1. Alessandro,
    quero te dar os parabéns pelo seu blog. Sou professor na UFAL e trabalho com as questões de drenagem, mas com a visão de hidrologia. Gostei muito da sua abordagem da cartografia. Eu também uso esse processo histórico de ocupação do espaço para analisar os sistemas de drenagem e suas patologias, mas minha análise está focada nos processos hidrológicos e suas alterações (assim como as relações de quantidade e qualidade da água urbana).
    Gostei de ver as fotos antigas e os mapas, mostrando essas relações.
    Parabéns!
    Vladimir Caramori

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    1. Prof.Dr.Vladimir muito obrigado pelos comentários! É muito legal as suas abordagens em relação à drenagem, é importantíssima a multidisciplinaridade para se compreender o desencadeamento dos diversos processos nos centros urbanos e analisar a mudança espacial nos mesmos. Novamente obrigado e fique a vontade para qualquer observação!

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  2. adorei amei lindo parabens ao autor

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  3. Por curiosidade gostaria de saber qual a área total aproximada dentro da Av. do Contorno, vocês teriam esta informação?

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  4. A área urbana compreendida pela av. do Contorno tem aproximadamente 8,63 km2. No projeto original do eng. Aarão Reis a área era um pouco mais extensa, cerca de 8,82 km2. No seu trecho junto ao bairro Cidade Jardim a avenida foi modificada e foram suprimidos cerca de 11 quarteirões. No projeto original a avenida não teria aquela "curva" no bairro de Santo Antônio, esquina com rua Rio de Janeiro. Ela prosseguiria onde hoje existe a rua Joaquim Murtinho, e na outra ponta, junto à rua Ouro Preto e av. André Cavalcanti, também não haveria a curva. Estes dois tramos se encontrariam onde hoje é a rua Sinval de Sá quase esquina de rua Josafá Belo, no bairro Cidade Jardim.

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  5. Boa tarde. Poderia me dizer qual o tamanho da avenida do contorno? Grato.

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