Vila Arthur de Sá.
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          Apesar desse conturbado contexto, por sinal histórico, no qual nos encontramos, o Autor deste blog acredita que muitos dos leitores já ouviram falar da “imprescindível” Via 710, obra considerada essencial para proporcionar a ligação direta entre as Avenidas Bernardo Vasconcelos e Andradas desde a Avenida Cristiano Machado, evitando assim uma suposta obrigatoriedade de se passar pela área central da capital. A via segue o traçado do antigo ramal férreo do Horto Florestal/Matadouro, no trecho compreendido entre os bairros São Geraldo e União. A obra, apresentada no Programa de Estruturação Viária de Belo Horizonte (Viurbs) no ano de 2008 foi incluída nas faraônicas e inúteis obras para a Copa de 2014 e obviamente não concluída a tempo do maior espetáculo da Terra.

     A administração municipal vem empreendendo desapropriações e demolições desde o ano de 2013, ano em que o Curral del Rey começou a acompanhar a execução das obras, ao mesmo tempo em que pesquisava sobre o Ramal férreo do Matadouro, artigo postado em setembro de2014.

     Durante todo esse tempo foram e continuam sendo realizadas diversas visitas a campo para acompanhar o andamento das obras e coleta de dados com os moradores da região, em particular o bairro União e a Vila Arthur de Sá, edificada sobre a linha do ramal férreo anos após a supressão do percurso no ano de 1969. Nesse mesmo período foram publicadas na imprensa diversas matérias sobre a questão das desapropriações, muitas delas sem necessidade alguma e ainda a questão da usurpação por parte da administração municipal dos antigos terrenos da Estrada de Ferro Central do Brasil (RFFSA) pertencentes à União, ocupados pela Vila.

     Felizmente e incrivelmente, visto a inacessibilidade a grande maioria dos projetos das obras realizadas na capital, coisa que foi naturalmente constatada ao se escrever o livro Rios Invisíveis da Metrópole Mineira, onde não se conseguiu ter acesso a projetos viários/canalizações de quase meio século, o projeto se encontra disponível para download no portal “Copa Transparente”. Ao mesmo tempo em que se estudava o projeto, o autor se deparou com a denúncia de uma “higienização” em andamento na Vila Arthur de Sá, a partir da retirada dos moradores de uma porção da Vila sem necessidade alguma, pois a via passará limítrofe as terras ocupadas/invadidas desde a desativação do ramal ferroviário sob conivência do Governo Federal (isso há mais de trinta anos). Tudo isso está nas inúmeras reportagens da mídia e nos links do MPF no final do artigo.

Imagem aérea do ano de 1953 referente ao extinto ramal e correspondente
ao traçado da Via 710, que acompanhará o trajeto férreo.
Fonte: APCBH gabinete do prefeito

     Ao que tudo indica, visto a inexistência (ou inacessibilidade) aos documentos, todo o leito propriamente dito do extinto ramal não foi cedido ao município, apenas algumas partes e os terrenos que se encontram abaixo da Vila e próximos a linha do Metrô, levando ao questionamento de quem realmente é o invasor do terreno, os moradores, assentados ali sob a benevolência federal, ou a administração municipal, que corre contra o tempo para lotear, proporcionar para a iniciativa privada a maior quantidade de terrenos possível[1] e transformar em lei projetos bizarros que beneficiarão apenas os políticos e os detentores privados do capital. E o pior de tudo isso é que uma parte considerável de tais desapropriações não se encontra no caminho da via em construção e nem das vias marginais, o que causará o surgimento de grandes e lucrativos vazios urbanos, como os existentes na Lagoinha, ainda que temporariamente, nesse caso.

     Usurpações à parte, apesar das denúncias e das recomendações do MPF para que se evitem remoções desnecessárias, esse fato inclusive foi constatado pelo próprio Ministério no ano de 2015, tudo vem acontecendo dentro do previsto pela PBH, as remoções maciças continuam sendo realizadas, sob alegação que a área (federal) foi invadida, sendo realizadas pequenas indenizações, de acordo com os moradores. Invadida há cerca de trinta anos, ou seja, há pelo menos uma geração. E onde serão reassentados os moradores? Possivelmente em locais bem distantes da via, pois ali não é mais o lugar deles de acordo com as normas higienistas. Ao longo de todo esse impasse, existem relatos no qual diversas famílias foram obrigadas a mudar às pressas dos terrenos federais, ameaçadas de se tornarem escombros, assim como os seus bens domésticos. Arbitrariedades similares são cometidas por estas bandas desde as primeiras décadas da capital e na última ditadura, quando o instrumento repressor estadual dava suporte às “pacificas” remoções no município.
     
      Ao se lançar os olhos nas distintas imagens relacionadas ao projeto da via nota-se que uma parte das remoções da Vila estão realmente sendo feitas sem a menor necessidade, visto que uma considerável porção da via passará na porção compreendida entre as casas em processo de remoção e a linha do metrô, em área onde a remoção já se encontra praticamente concluída.

A Via 710, quando da divulgação do Viurbs no ano de 2008.
Fonte: Viurbs/PBH

Parte da Via correspondente a Vila Arthur de Sá, extraído de 
uma audiência pública no ano de 2012.
Fonte: PBH

Sobreposição do referido trecho, imagens dos anos de 1953 e 2011.

Sobreposição aproximada de um trecho da Rua Arthur de Sá.
Fontes: Google Earth e portal Copa Transparente

Outra porção de um trecho correspondente ao bairro 
União, trecho que já se encontra arrasado.
Fontes: Google Earth e portal Copa Transparente

      Diante de todo esse contexto, pode se concluir que as remoções certamente atenderão os interesses fundiários, visto a valorização das terras da região nos últimos anos a partir do anúncio do inicio das obras do “corta caminho” por uma administração que será reconhecida no futuro como a responsável pelo reemprego de métodos retrógrados e pela “venda” da cidade, submissa aos interesses do capital privado. Em suma: Belo Horizonte se tornou uma Cidade-Empresa onde nada é pensado para os seus habitantes e sim como plataforma politica e para obtenção de lucro (o que não é novidade), mesmo que isso acarrete na piora na qualidade de vida dos citadinos que, em muitos casos, aplaudem as eternas obras e as remoções, sem levar em conta as consequências de tais atos e sem compreenderem o grau de alienação em que se encontram, achando que isso tudo é normal. Basta ler os comentários dos distintos cidadãos nas matérias cujos links se encontram no final do artigo, que aconselham a “passar o trator” por cima dos moradores, entre outros absurdos. Isso sem citar as remoções em lugares não invadidos que também estão sendo realizadas para a construção de infraestrutura, tais como viadutos, trevos, vias coletoras etc.

      Mas tudo isso é pouco significativo perto das vidas e historias que serão esmagadas pelo rolo compressor do progresso. Vocês, que estão ai no conforto do seu lar, que batalharam anos, décadas para atingir um grau de conforto material, imaginam de repente serem obrigados a abandonarem os seus lares, recebendo uma quantia que não dá para comprar nem um pequeno lote na região metropolitana, onde terrenos são relativamente mais baratos que na capital, sob a justificativa da abertura de uma via? Pois se o Poder Público/Privado resolver que amanha passará uma larga e confortável Via Expressa sobre o seu imóvel, adeus. Pensem se vale a pena a remoção, muitas delas na base da ameaça, de famílias inteiras apenas para você ganhar alguns minutos em sua vida sobre rodas, isso quando se ganha. É assustador o grau de individualidade de uma considerável parcela da nossa sociedade, que toma como ofensa pessoal desde uma fechada no trânsito, uma conversa com as instituições educadoras dos filhos e até mesmo decisões politicas de âmbito coletivo, resquícios de uma sociedade colonial que matava sempre pela “defesa da honra”. Antes de vocês me criticarem pelo texto, pensem em seus próprios valores e compreendam que vocês são exatamente iguais aos moradores da Vila pois, como dito anteriormente, se os interesses público-privados resolverem que sobre o seu imóvel deve-se construir uma Via Expressa, você terá que sair do conforto do seu lar e habitar sabe lá onde, longe da sua história, dos seus amigos e da sua vida. Ou vocês acham que serão “beneficiados” pela pseudoposição social ocupada na cidade? Ou por terem tido condições e chances, em alguns casos, de ter acesso à educação, a moradia e outras coisas mais proporcionadas pela sua família se acham no direto de escorraçar quem não teve as mesmas oportunidades? A quem pertence a cidade? Em pleno século XXI continuamos a repetir os mesmos erros dos séculos antecedentes, qual o motivo desse retrocesso? Deixo a resposta à cargo de vocês.

Os vazios em meio as sentenciadas moradias na Vila Arthur de Sá. 
Ao centro o antigo leito do ramal, escondido pelas moradias.
Foto do Autor

O exato momento da saída de um morador do bairro em
imagem do ano de 2015. À direita a vila.
Foto do Autor

A remoção quase concluída no trecho correspondente a Via 710. 
À direita uma parte da Vila.
Foto do Autor

Os recados nas paredes do arrasamento, desaparecidas 
pouco tempo após esse registro.
Foto do Autor

     Como dito por um distinto morador da Vila: claro que eles vão nos tirar, eles não querem os pobres por perto desse lugar que vai se valorizar. Tudo isso dito em meio às lembranças do local, do trem elétrico passando na porta de casa na sua infância e de todo o processo de ocupação do leito ferroviário recém-desativado, ao mesmo tempo em que o distinto cavalheiro e sua esposa criavam os filhos, já adultos. Confesso que fiquei emocionado e chorei muito quando me afastei para fazer algumas imagens de toda a paisagem que se encontra prestes a desaparecer. Obviamente uma pesquisa, por mais simples que seja, deve ser realizada da forma mais imparcial possível, mas a partir da arbitrariedade imposta por uma administração que continua a perpetuar métodos e a tomar decisões de cunho elitista e higienista, sob a desculpa rodoviarista de melhoria da mobilidade, medidas que beneficiam apenas o capital feroz e dominador e os interesses de um seleto grupo, não é possível ficar calado diante de tais decisões. Espero que vocês compreendam o que está em andamento na cidade, apesar do conveniente desconhecimento geral, que se encontram preocupados apenas com o destino federal, mas mais uma vez se esquecem do seu quintal, e as eleições estão ai né? E Belo Horizonte não se resume ao seu bairro e a Praça da Liberdade, convido todo mundo a pular a cerca e descobrir o mundo exterior da velha e singular zona suburbana.

      Gostaria de deixar claro que o texto aborda apenas sobre o trecho correspondente ao trecho do bairro União, a Via impactará também regiões dos bairros Santa Inês e São Geraldo, as quais serão posteriormente abordadas. E em todo esse contexto capital-higiênico fica a dúvida: como que se deu a ocupação da porção do ramal no bairro União e ao longo da Avenida Cristiano Machado? Esse trecho encontra-se atualmente ocupado por edifícios residenciais, hotéis e concessionárias, além de edifícios comerciais em construção. Se toda a área referente ao ramal pertence à União, o referido trecho da imagem abaixo foi invasão? Se sim, eles também serão removidos? E claro, com direito a uma pequena indenização?
     
Em destaque o trecho do ramal correspondente a uma outra porção 
do bairro, ocupados por inúmeros edifícios residenciais e comerciais, 
entre outros estabelecimentos.
Fonte: Google Earth 2011

     Publico esse pequeno desabafo acreditando que, em futuro não tão distante, arbitrariedades desse tipo, cometidas desde a inauguração da capital mineira, não se repitam mais, pois o que é do século XX que fique no século XX, precisamos andar para frente e não ficar preso aos erros do passado, pois a cidade é para todos e as leis também. Pensem nisso quando estiverem escolhendo os seus representantes nos próximos meses, pois a cidade está doente e nós somos a cura, e a cura vem através do voto, a infecção continuará se tudo continuar do jeito que está, carcomidos e acomodados em suas cadeiras legislativas e executivas, trabalhando (a maioria) apenas para o bem estar da sua classe. Mudanças são urgentes e necessárias.


Recomendações do Ministério Público Federal

Para a PBH: Link
Para a Urbel: Link
Para a Sudecap: Link
Para a Secretaria de Patrimônio da União: Link


Links de algumas das reportagens publicadas pela mídia e pela PBH

Ministério Público Federal (importante): Link
Estado de Minas: Link 01Link 02
O Tempo: Link 01Link 02
R7: Link
Brasil de Fato: Link




[1] Os terrenos públicos, cristas de serra e a Mata do Planalto que o digam, visto a “luta” do Poder Público em conseguir a qualquer custo a licença para a construção dos edifícios na área, um claro exemplo de uma administração que trabalha em prol do capital privado, dando às costas para a população. No caso do Planalto, mesmo sendo terreno particular, a mata figura como uma das ultimas reservas verdes do município, com inúmeras e imprescindíveis nascentes, e é obrigação do Poder Público zelar pela cidade e pela sua população, que definitivamente não compreende o que é uma democracia representativa e o quão nocivo são os partidos políticos, nefastas organizações que dão às costas para a população e buscam conquistar o poder a qualquer custo. Apesar de toda essa “luta” que ocorre atualmente, uma considerável parcela da população ainda não compreendeu que de nada vai adiantar se não ocorrer uma profunda reforma politica excluído toda a classe que supostamente representa o povo.  

2 comentários:

  1. Excelente matéria, triste realidade. Creio que essas obras façam parte da contrapartida dos famosos financiamentos de campanha. É triste vermos também o avanço do tal "boulevard Arrudas". Me parece que muitos ex moradores do terreno escolhido para abrigar o novo Terminal Rodoviário de Belo Horizonte se encontram em situação semelhante, obrigados a sair a troco de indenizações insuficientes. Aliás, é curioso percebermos que políticos, empresários e apoiadores de tais medidas adotam o famoso discurso neoliberal, mas não estão nem aí pra propriedade privada do povo.

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  2. É notório o fato de muitas edificações presentes na área onde está sendo construída a obra, não precisavam ter sido desapropriadas, só o foram pois as empreiteiras (com seus acionistas, donos e aparentados) sabem o quanto a região irá se valorizar economicamente e deter esses espaços para a construção de outros empreendimentos no futuro é mais que uma jogada de mestre.

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Rios Invisíveis da Metrópole Mineira

gif maker Córrego do Acaba Mundo 1928/APM - By Belisa Murta/Micrópolis