Parte da Fazenda Gameleira e do Instituto João Pinheiro na década de 1910.
Fonte: APM

É sabido que o transporte ferroviário no Brasil está relegado a segundo plano por razões óbvias, que não abordarei aqui, basta observar que pululam veículos movidos a gasolina e a óleo diesel em nossas cidades e estradas.
A Estação Gameleira, uma das paradas das composições do Ramal do Paraopeba, construído na década de 1910 para a ligação direta entre a capital e a cidade de Conselheiro Lafaiete sem precisar fazer baldeação, antes necessária devido à bitola da linha encontrava-se abandonada desde 1996, com a extinção da Rede Ferroviária Federal e o arrendamento das linhas exclusivamente para o transporte de cargas.
Nos últimos anos o lastimável estado de conservação da estação chamava a atenção de uma parcela da população da capital e dos antigos usuários da linha, que vislumbravam um futuro nefasto para o edifício em ruínas. Surpreendentemente, no mês de Setembro teve inicio a troca do madeirame e a reforma do telhado do edifício visando à conservação do que ainda está de pé para a posterior reforma da estação para, ao que tudo indica abrigar a sede da Escola Livre de Circo.

Celas de lixo na Fazenda Gameleira em 1929.
Fonte: APM

Construção da ponte sobre o ramal da E.F.C.B. na década de 1940 na Gameleira.
Fonte: Desconhecida

O local em imagem do ano de 1953, destacando-se a Estação Gameleira.
Fonte: APCBH Gabinete do Prefeito.

A Estação em imagem do ano de 1985.
Fonte: Panoramio/GELASBRFOTOGRAFIAS Geraldo Salomão

A estação em ruínas no ano de 2012.
Fonte: Foto do Autor

A estação sem o telhado em Agosto de 2014.
Fonte: Foto do Autor

Troca do madeirame da estação em Setembro de 2014.
Fonte: Foto do Autor

A troca do madeirame concluída e parte do telhado em Outubro de 2014.
Fonte: Foto do Autor

Aproveito para divulgar o projeto Fazenda Gameleira elaborado pela turma do Micropólis, que propõe uma ressignificação de um dos espaços afetados pelas obras viárias que nunca cessam em Belo Horizonte, cuja estação se encontra inserida no projeto. É importante observar que o local onde se construiu a estação na década de 1910 fazia parte da Fazenda Gameleira, comprada pelo pelo Estado em 1908 na então zona rural de Belo Horizonte. Anterior ao Parque de Exposições a fazenda abrigou as celas destinadas ao lixo recolhido na capital durante as décadas de 1920 e 1930, até a criação do parque em 1938. Segue abaixo o texto do projeto:

"Fazenda Gameleira foi o projeto ganhador do concurso nacional de paisagismo ENEPEA. Elaborado por Micrópolis, coletivo de arquitetura de Belo Horizonte (www.micropolis.com.br), o projeto propõe a ressignificação dos espaços residuais resultantes das grandes obras viárias a que foi submetido o bairro Gameleira (região oeste de Belo Horizonte) ao longo dos anos, a partir da criação de uma rede de ações baseadas na economia solidária, na habitação cooperativa e na agricultura urbana. 
O projeto prevê a construção de um galpão-sede em torno do qual se organiza esta rede, gerida pelos moradores da cooperativa. Nos bolsões entre rodovias, hoje ocupados por grama, serão cultivados alimentos orgânicos que, depois de colhidos, serão transportados para o galpão-sede, onde se realizarão os processamentos, a estocagem e a compostagem e que também abrigará cozinha experimental, restaurante e café populares e escola. É dali que sairão os legumes, frutas e derivados, prontos para a distribuição em veículos da cooperativa, que se instalarão temporariamente no espaço público dos bairros do entorno, servindo como sacolões pop-up a baixo preço e ativando espaços hoje desprovidos de sociabilidade.
A história oficial da cidade nos conta que, na época da fundação de Belo Horizonte, o território da Gameleira abrigou fazendas-modelo do estado que tinham como objetivo o abastecimento da cidade. Já as micro-histórias nos revelam que espaços que um dia serviram como depósito de lixo na região foram transformados em praças pela pressão dos moradores e, hoje em dia, recebem plantações completamente independentes da ação do poder público. Fazenda Gameleira põe em relevo estes outros modos possíveis de vida e de organização do espaço, muitas vezes embaçados pela fumaça do progresso".





É de suma importância pensarmos em um novo modelo de cidade, onde se priorize as relações sociais, a ressignificação do espaço e o uso de transportes alternativos aos impostos pelo Poder Público e pelos agentes econômicos que visam apenas o lucro a qualquer custo, em detrimento aos interesses coletivos e à custa dos elementos naturais, visto até os dias atuais como invasores da urbe. Nesse sentido boas contribuições, reflexões e maneiras de se (re)pensar o espaço serão sempre bem vindas.


Aproveito para agradecer a Dona Olira e sua família pela excepcional recepção e pelos importantes esclarecimentos sobre a estação e suas belas histórias. A imagem do ano de 1985 divulgada aqui no blog é uma das únicas conhecidas do período. Os responsáveis pelas obras estão atrás de mais imagens da estação em uso, posteriormente será empreendida a reforma do edifício onde as imagens serão importantes para um restauro mais fiel. Segundo a família de Dona Olira que mora e cuida do local da estação existe algumas imagens que estão em poder de estudantes da Comunicação Social da PUC Minas, obtidas do acervo da família e nunca devolvidas, sob a alegação de digitaliza-las e entrega-las posteriormente para ilustrar um trabalho de graduação. Tal atitude por ser vista, no mínimo, como um furto não só a família dona das imagens mas a nossa própria história. 

2 comentários:

  1. Me parece bem interessante o projeto! Entretanto, na maior parte dessa área há o projeto do "piscinão do calafate", para contenção de água nas chuvas e também um parque, bem como integração à futura estação Nova Suíssa. Seria interrante uma integração dos dois projetos, para que um não tenha que deixar de existir por causa do outro.

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